Entre o final de maio e o início de junho, 11 agências dos Correios foram fechadas no Rio Grande do Sul. Foram quatro unidades com atividades encerradas em Porto Alegre, duas em Caxias do Sul e uma em Gramado, na Serra, uma em Rio Grande, no sul do Estado, uma em Triunfo, na Região Carbonífera, uma em São Leopoldo, no Vale do Sinos, e uma em Derrubadas, no Noroeste.
As medidas são parte do plano de reestruturação da estatal, diante de recentes prejuízos operacionais bilionários. Em nota enviada à reportagem, os Correios afirmam que “o atendimento segue normalmente, pois tem outras unidades de Correios nos municípios”.
Nos locais onde as agências foram fechadas, porém, moradores demonstram insatisfação com as medidas.
Em Porto Alegre, as unidades que tiveram atividades encerradas ficavam
- No Foro Central, no bairro Praia de Belas
- No Campus do Vale, da Ufrgs, no Bairro Agronomia
- No número 5.718 da Avenida Protásio Alves, no bairro Vila Jardim
- No número 2.080 da Avenida Bento Gonçalves, no bairro Partenon
Elenira Martins Pereira, 63 anos, é moradora do Morro da Cruz, na zona leste de Porto Alegre, desde que nasceu. Uma das lideranças da comunidade, “dona Nira” diz que se recorda quando foi aberta a agência dos Correios na Bento e lamenta o fechamento.
— Aqui no morro tem muita rua e viela, é difícil do carteiro e do entregador chegar no endereço exato, e a gente já sabia que podia pegar nossas encomendas direto na agência. Além disso, pra gente aqui do morro, dava pra descer a pé até a agência, agora vamos ter que gastar com condução para ir até um outro lugar. É um descaso com a população, que é quem sofre — avalia.
Em Caxias do Sul, as unidades encerradas ficam nos bairros Ana Rech e Galópolis, regiões distantes da área central do município.
— Pra nós foi uma surpresa muito negativa. Aqui é uma região mais rural, com uma boa parcela da população idosa, e agora vai aumentar muito o tempo de deslocamento para chegar até outra agência. Já está sendo um grande transtorno — afirma o presidente da Associação Amigos de Ana Rech (Samar), Paulo Ballardin.
Conforme a nota dos Correios enviada à reportagem, “no momento, não há previsão de fechamento de outras agências nas próximas semanas.” Contudo, o Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos do Rio Grande do Sul (Sintect-RS) diz que outras unidades da empresa no Estado estão na mira para serem fechadas, como os centros de distribuição no bairro Menino Deus (Av. Natal, nº 141) e no bairro Navegantes (Travessa Dr. Heinzelmann, nº 489), em Porto Alegre.
Crise e reestruturação
Os Correios vivem uma grave crise financeira. O mais recente balanço, divulgado no último fim de semana de maio, mostra que a empresa teve prejuízo de R$ 3,1 bilhões somente no primeiro trimestre de 2026. Em 2025, acumulou prejuízo de R$ 8,5 bilhões, além de somar resultados trimestrais negativos seguidos desde o final de 2022.
No final de 2025, a estatal anunciou um plano de reestruturação. Como parte deste movimento, ainda em dezembro os Correios anunciaram empréstimo de R$ 12 bilhões junto ao Tesouro Nacional.
Outra medida de ajuste das contas anunciada é o fechamento de mil das cerca de 6 mil agências próprias que a empresa mantém no território nacional. No Rio Grande do Sul, os Correios têm cerca de 500 unidades próprias. O plano também prevê venda de bens.
— Essas medidas ajudam a dar fôlego ao caixa da empresa, mas a meu ver, são paliativas, porque não resolvem a questão estrutural. O principal problema dos Correios é o desequilíbrio entre a receita e as despesas. A empresa se financia a partir das suas receitas, e essas têm diminuído, frente à competição de empresas privadas, por exemplo, enquanto as despesas seguem aumentando. Se não resolver esse desequilíbrio, as dificuldades financeiras da empresa vão se manter — analisa o economista Darcy Carvalho.
Demissão voluntária
Também dentro do plano de reestruturação, os Correios instituíram um novo programa de demissão voluntária. Em todo o Brasil, são cerca de 80 mil empregados diretos, sendo aproximadamente 5,1 mil no Rio Grande do Sul.
A expectativa da gestão da empresa era que cerca de 10 mil trabalhadores aderissem ao PDV neste ano, e outros 5 mil ao longo de 2027. Até o momento, cerca de 3,1 mil funcionários aderiram ao PDV em todo o país. No RS, segundo o Sintect-RS, foram cerca de 85.
— A adesão foi muito baixa porque as condições apresentadas foram muito ruins, ficando muitas vezes bem abaixo do que seria uma rescisão normal, por exemplo. Sem um estímulo mais atraente, é muito pouco provável que essa adesão aumente — destaca o secretário-geral do sindicato, Alexandre Nunes.
Em maio de 2025, os Correios já tinham iniciado um outro PDV. Segundo a estatal, aquele programa teve adesão de aproximadamente 3,5 mil funcionários, o que teria gerado uma economia anual de cerca de R$ 750 milhões.
GZH






