O anúncio feito na última quarta-feira (9) de uma taxação de 50% na importação de produtos brasileiros pelo governo de Donald Trump vem causando alvoroço não só no governo federal, mas em diversos setores da economia. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, afirmou em nota não haver fato econômico que justifique a medida. A entidade pede a intensificação das negociações para preservar a relação com um dos maiores parceiros comerciais do Brasil.
Para a economista Giana Mores, docente do mestrado em Administração da Atitus Educação e Cofundadora do Observa Agro, o anúncio do governo norte-americano deve ser visto com apreensão. “A taxação anunciada pelos EUA é um movimento que preocupa, porque sinaliza um ambiente mais protecionista. Ela pode afetar a competitividade do Brasil, especialmente em setores estratégicos. Ainda é preciso acompanhar os desdobramentos práticos, mas o recado é claro: o Brasil precisa reforçar sua diplomacia comercial e rever sua estratégia de inserção internacional, com foco em inovação e competitividade”, avalia.
Um dos setores que deverá ser afetado é o de exportação de carnes, que deve ter um impacto na região, uma vez que faz parte da lista de produtos exportados pelos municípios da região, em especial Passo Fundo. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a medida de Trump tornará o custo da carne brasileira tão alto que inviabilizará a venda do produto para os Estados Unidos. “Passo Fundo tem uma base exportadora forte em grãos, proteína animal e soluções industriais para o agro, especialmente na área metalmecânica. E sim, essa taxação pode afetar a região – direta e indiretamente. Mesmo que os alvos imediatos sejam outros setores, o ambiente de tensão comercial impacta o câmbio, pressiona custos e pode gerar barreiras técnicas mais duras adiante. Quando o mercado externo fica mais restrito, há efeito em cadeia no mercado interno. Por isso, o setor produtivo local precisa estar atento e preparado para reposicionar estratégias”, pontua a economista.
O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Adolfo Freitas, também encara o anúncio da tarifa com cautela. “Penso, embora não esteja bem claro o que será essa taxação, que para Passo Fundo a ameaça de tarifas de 50 % de Trump sobre o Brasil traz riscos reais — na forma de custos mais altos, preços agrícolas voláteis, e uma possível retração de investimentos”, ressalta.
O efeito, de acordo com o secretário, será sobretudo indireto, mas permeia a economia regional devido à forte base no agronegócio. E, uma vez concretizada a taxação, será necessária a avaliação de alternativas: “precisamos buscar novas estratégias, em especial buscar novos mercados (como UE, Ásia e China), também ajustar contratos para se proteger de flutuações cambiais, já que o mercado já reagiu com alta do dólar e isso gera, para a cadeia de insumos cotados em dólar, uma insegurança e aumento de custos. Temos que esperar uma reação efetiva do governo federal para que essa taxação não se concretize”, argumenta Freitas.
Maiores impactos
Além do agronegócio, que deve afetar diretamente Passo Fundo e a região, outros setores deverão sentir os impactos da medida anunciada pelo presidente norte-americano. “As medidas de taxação anunciadas pelos EUA atingem principalmente setores industriais ligados à energia, tecnologia e sustentabilidade. No entanto, o agro não está fora do radar. Mesmo não sendo o alvo imediato, o setor sente o reflexo de dois lados: primeiro, pelo efeito sistêmico nas relações comerciais globais; segundo, porque qualquer escalada protecionista costuma ser acompanhada de barreiras técnicas ao agro, como exigências sanitárias e ambientais mais rígidas. Ou seja, o impacto pode não ser direto, mas é real e o setor precisa estar atento”, destaca.
Parceria comercial
Os EUA são um importante parceiro comercial do Brasil, respondendo pela segunda colocação entre os maiores importadores de produtos brasileiros, ficando atrás apenas da China. Esse é um dos principais motivos da preocupação. A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) afirmou receber com surpresa e indignação a informação e que entende que o cenário que hoje se vislumbra é muito duro para o Brasil, pois se refere a uma ameaça não só aos exportadores, mas a toda a economia do país. A entidade acredita que o bom senso prevalecerá e a taxação será revertida.
Em termos locais, a preocupação é real. Isso porque, conforme Giana, os “Estados Unidos são um dos nossos principais compradores, especialmente para empresas da região que atuam com produtos voltados ao agronegócio. Passo Fundo tem um setor produtivo cada vez mais conectado ao comércio global, e qualquer mudança nas regras ou nas relações comerciais com os EUA precisa ser acompanhada de perto. Esses movimentos exigem atenção técnica, articulação internacional e preparo das empresas para responder com estratégia”, ressalta a economista.
*Radio Uirapuru






