Estudo global revela que 22 dos 34 sinais vitais do planeta atingiram recordes alarmantes; cientistas alertam para pontos de inflexão climáticos e propõem caminhos de reversão.
A Terra vive seu momento mais crítico em milhares de anos. De acordo com o Relatório do Estado do Clima 2025, publicado na revista BioScience, 22 dos 34 indicadores que medem a saúde climática do planeta alcançaram níveis recordes de degradação. O estudo, conduzido por cientistas da Universidade Estadual do Oregon e do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impacto Climático, descreve um cenário de aquecimento acelerado e crescente risco de colapso ambiental.
Década mais quente da história e risco de “estufa terrestre”
Segundo o relatório, o ano de 2024 foi o mais quente já registrado — e possivelmente o mais quente dos últimos 125 mil anos. O nível de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera ultrapassou 430 partes por milhão (ppm) em maio de 2025, marca inédita em milhões de anos.
Os cientistas alertam que o planeta pode estar se aproximando de um ponto de inflexão que leve à chamada “trajetória de estufa terrestre” — um estado em que o aquecimento global prossegue mesmo que as emissões sejam reduzidas. Fatores como a menor refletividade da superfície terrestre, o aumento da retenção de calor pelas nuvens e a redução do efeito de resfriamento dos aerossóis têm intensificado o fenômeno.
Ação humana e consumo desigual ampliam o desequilíbrio
O relatório atribui à atividade humana o papel central na crise. O crescimento econômico e populacional, aliado à dependência de combustíveis fósseis, pressiona os limites ecológicos do planeta. Em 2024, as emissões de energia atingiram 40,8 gigatoneladas de CO₂, o maior volume da história, com China, Índia e Estados Unidos respondendo por mais da metade do total.
O estudo aponta ainda que os 10% mais ricos do mundo foram responsáveis por dois terços do aquecimento global desde 1990, reforçando o papel das desigualdades no agravamento do colapso climático.
Oceanos, florestas e polos em colapso
O calor oceânico atingiu recorde histórico e provocou o maior branqueamento de corais já registrado, afetando 84% dos recifes entre 2023 e 2025. A acidificação das águas, a perda de gelo na Groenlândia e na Antártida e o aumento acelerado do nível do mar também preocupam.
A Circulação Meridional do Atlântico (AMOC) — sistema de correntes que regula o clima global — mostra sinais de enfraquecimento, o que pode desencadear secas, mudanças de regime de chuvas e instabilidade climática em larga escala. Nas florestas tropicais, os incêndios florestais ligados ao calor e ao El Niño cresceram 370% em 2024, liberando 3,1 gigatoneladas de CO₂, o equivalente a 8% das emissões globais anuais.
Caminhos possíveis e janela de ação cada vez menor
Apesar do alerta, o estudo enfatiza que ainda há tempo para agir. A transição energética é vista como eixo central para conter o desastre. Fontes renováveis como a solar e a eólica já são as mais baratas do mundo e poderiam gerar até 70% da eletricidade global até 2050, desde que o uso de combustíveis fósseis seja eliminado rapidamente.
Outras medidas apontadas incluem restaurar ecossistemas, reduzir o desperdício de alimentos e adotar dietas mais sustentáveis. Segundo os autores, restaurar florestas e manguezais poderia remover até 10 gigatoneladas de CO₂ por ano.
O relatório conclui que mitigar o aquecimento global custa menos do que arcar com os danos dos desastres climáticos já em curso. E reforça que o desafio é tanto tecnológico quanto social: “Precisamos de pontos de inflexão positivos — ações coletivas capazes de mudar a trajetória do planeta enquanto ainda há tempo.”
*Agora no Vale






