Gripe aviária no RS: como o vírus evoluiu, cruzou espécies e virou ameaça global
Desde os primeiros registros na Europa, ainda no século 19, até os surtos atuais, a gripe aviária se espalhou entre espécies e continentes
19/05/2025 | 12:11
Correio do Povo
Escavadeira trabalha em granja comercial, local do primeiro surto de gripe aviária do país, em Montenegro (RS) | Foto: Silvio Avila / AFP / CP
A gripe aviária não é uma ameaça recente. A doença foi descrita pela primeira vez em 1878, na Itália, como “Praga Aviária”, e somente em 1955 foi identificado o vírus da influenza A aviária como seu causador. Desde então, o mundo tem acompanhado sua evolução com preocupação, à medida que novos subtipos surgem, cruzam fronteiras e infectam tanto aves quanto humanos.
Segundo informações da Embrapa Suínos e Aves, o vírus da gripe aviária apresenta alta variabilidade genética, especialmente por ser um vírus de RNA, que não corrige erros durante a replicação. Isso favorece mutações e recombinações frequentes, que dificultam o controle, inclusive com vacinas.
Quando a gripe aviária mudou de patamar
O primeiro caso de gripe aviária com impacto em humanos foi registrado em 1997, em Hong Kong, com o subtipo H5N1, que causou doenças graves e mortes. A partir dali, surgiram outras variantes como H7N9, H5N6, H9N2 e mais recentemente H3N8 e H10N3 — todas com potencial zoonótico.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde Animal (WOAH), entre 2005 e 2021, surtos de gripe aviária de alta patogenicidade (HPAI) provocaram a morte ou abate de mais de 316 milhões de aves no mundo. Os anos de maior impacto foram 2016, 2020 e 2021, com mais de 50 países afetados em cada período.
Além das perdas econômicas, a preocupação maior está na possibilidade de o vírus evoluir e adquirir capacidade de transmissão sustentada entre humanos, o que poderia resultar em uma nova pandemia.
O papel das aves aquáticas e do suíno na transmissão
As aves aquáticas silvestres, como patos, marrecos e gansos, são consideradas os principais reservatórios naturais do vírus, muitas vezes sem manifestar sintomas. Elas excretam o vírus pelas fezes e contaminam água, alimentos e ambientes.
Quando essas aves têm contato com galinhas e perus, o vírus pode se adaptar e se tornar altamente patogênico. De acordo com dados da Embrapa, o convívio entre espécies diferentes em feiras, criatórios mistos e áreas urbanas densas, como ocorre em muitos países da Ásia, favorece a recombinação genética entre vírus.
O suíno também aparece como hospedeiro intermediário em sistemas de produção mistos. Caso um animal esteja infectado simultaneamente por vírus aviários e suínos, pode haver mistura genética e formação de um novo subtipo com capacidade de infectar humanos, como ocorreu com o H1N1 em 2009.
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Onde o risco é maior?
Regiões com alta densidade de aves comerciais e contato frequente com aves silvestres ou migratórias apresentam maior risco de surtos. Feiras de aves vivas, lagos abertos e ausência de controle sanitário tornam-se pontos de atenção.
O vírus, embora seja facilmente inativado com desinfetantes, pode sobreviver por longos períodos em ambientes frios e úmidos, especialmente em fezes ou em carcaças congeladas.
Segundo a Embrapa, a prevenção passa por medidas como:
Monitoramento constante de aves comerciais e migratórias
Quarentena de aves importadas
Controle rigoroso de trânsito e comércio de aves vivas
Uso de telas e barreiras físicas em aviários
Treinamento de veterinários para ações rápidas em surtos
Casos humanos: quais subtipos causam mais preocupação?
A gripe aviária é principalmente uma doença animal. Mas alguns subtipos do vírus já conseguiram infectar humanos. O subtipo H5N1, por exemplo, já registrou cerca de 850 casos em humanos, com aproximadamente 425 mortes. O H7N9 foi responsável por cerca de 1.500 infecções, resultando em cerca de 600 óbitos. O H5N6 teve cerca de 80 casos notificados, com pelo menos 30 mortes, enquanto o H9N2, menos agressivo, causou cerca de 75 infecções com duas mortes confirmadas.
Além desses, subtipos como H3N8, H7N4 e H10N3 também foram detectados em humanos, mas de forma mais esporádica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o H5N1 e o H7N9 os subtipos de maior potencial pandêmico, pois continuam circulando amplamente entre aves e encontram na população humana nenhuma imunidade protetora.
O que o Brasil tem feito?
Até 2025, o Brasil não registrava surtos de gripe aviária em aves comerciais. Após a confirmação de foco em uma granja no Rio Grande do Sul, o país mantém a política de erradicação imediata e vigilância ativa, sem adoção de vacinação para aves — como já explicamos em matéria anterior.
A prevenção se baseia na rastreabilidade das aves, biossegurança nas granjas, e atuação dos Serviços Oficiais de Defesa Sanitária Animal, coordenados pelo Ministério da Agricultura (Mapa) e secretarias estaduais.
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