O presidente Donald Trump advertiu neste domingo (4) a nova líder venezuelana Delcy Rodríguez de que ela deve colaborar com os Estados Unidos se não quiser “pagar um preço muito alto”, um dia após a derrubada do mandatário Nicolás Maduro.
O presidente de esquerda, acusado de narcotráfico e terrorismo nos Estados Unidos, encontra-se em uma prisão de Nova York à espera de se apresentar perante um juiz na segunda-feira ao meio-dia.
Se sua sucessora Rodríguez “não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro”, disse Trump em uma breve entrevista telefônica à revista The Atlantic.
Delcy Rodríguez foi reconhecida neste domingo como presidente interina pela cúpula militar. À noite, dirigiu seu primeiro conselho de ministros.
Os Estados Unidos dizem querer controlar a complexa situação venezuelana à distância, sem forçar por ora uma mudança de regime, mas deixando todas as opções em aberto.
Falar de eleições na Venezuela “é prematuro neste momento”, declarou o secretário de Estado, Marco Rubio, em entrevista televisiva.
“Um país falido”
“Reconstruir não é algo ruim no caso da Venezuela”, disse Trump. “É um país totalmente falido. Um desastre em todos os sentidos”, acrescentou.
A legalidade da incursão é intensamente debatida nos Estados Unidos, onde o Congresso tem, em princípio, a prerrogativa de declarar guerra.
Rubio invocou os poderes especiais de Trump para ordenar o cumprimento de uma decisão da Justiça americana.
Os Estados Unidos não reconheciam Maduro como o presidente legítimo da Venezuela. No poder desde 2013, suas duas reeleições nos pleitos de 2018 e 2024 foram denunciadas como fraudulentas pela oposição.
Trata-se de “alguém que nunca respeitou nenhum dos acordos que firmou” e a quem “oferecemos, em múltiplas ocasiões, a possibilidade de abandonar o poder”, justificou Rubio.
“Maduro é uma pessoa horrível, mas você não responde a uma ilegalidade com outra ilegalidade”, criticou o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, em entrevista à ABC. O presidente colombiano, Gustavo Petro, classificou como um “sequestro” a captura de Maduro.
“a sangue frio”
Uma organização que reúne médicos na Venezuela informou à AFP cerca de 70 mortos e 90 feridos. O clima em Caracas era o de uma cidade fantasma neste domingo, com algumas farmácias e supermercados abertos, mas a maioria das lojas com as portas abaixadas. Policiais vestidos de preto, encapuzados e armados com fuzis patrulhavam as ruas.
As marcas dos bombardeios em áreas próximas ao porto e ao aeroporto de Caracas provocam angústia e incredulidade entre os moradores.
“Se um míssil desses cair aqui, bem, não sobra nada”, explicou à AFP Alpidio, de 47 anos, um morador do bairro Bolívar de La Guaira que não quis informar o sobrenome.
O Conselho de Segurança da ONU debaterá o caso em caráter de urgência nesta segunda-feira, e o mesmo fará a Organização dos Estados Americanos (OEA) na terça-feira, em sua sede em Washington.
Fim do terceiro mandato
Com esta operação militar, Washington pôs fim ao terceiro mandato do líder venezuelano (2025–2031), com o qual ele teria acumulado 18 anos no poder.
Desde 2020, Maduro é considerado pelos Estados Unidos o chefe do chamado “cartel dos Sóis”.
Ao todo, são seis pessoas do regime chavista atualmente acusadas, entre elas a própria esposa de Maduro, Cilia Flores, e o ministro do Interior venezuelano, Diosdado Cabello, considerado um dos homens-chave do regime.
Os interesses petrolíferos
Em suas primeiras declarações após a operação na Venezuela, Trump excluiu de seus cálculos políticos a líder opositora e Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado, ao afirmar que “seria muito difícil para ela estar à frente do país”.
Mas o opositor Edmundo González Urrutia, que reivindica a vitória nas eleições presidenciais de 2024, defendeu neste domingo que a normalização da Venezuela só será possível quando “forem libertados todos os venezuelanos privados de liberdade por razões políticas” e for respeitada “a vontade majoritária expressada pelo povo” nessas eleições.
O que Trump deixou muito claro foi sua intenção de incentivar as petroleiras americanas a retornarem à Venezuela.
“Vamos fazer com que nossas empresas petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores em qualquer parte do mundo, entrem, invistam bilhões de dólares, reparem a infraestrutura gravemente deteriorada, a infraestrutura petrolífera, e comecem a gerar dinheiro”, disse.
A Venezuela, sob sanções petrolíferas americanas desde 2019, produz cerca de um milhão de barris de petróleo por dia e vende a maior parte no mercado negro com grandes descontos.






