Não é de hoje que as terras do Oriente Médio chamam a atenção nas novelas e nos noticiários brasileiros. No ano de 2001, a novela ‘O Clone’ retratou muito o estilo de vida do povo árabe, já nos telejornais, os destaques são retratados através dos diversos conflitos entre Judeus e Árabes, que a mais de 70 anos dividem a cidade de Jerusalém entre o Estado de Israel e Palestina.
O conflito entre o Estado de Israel e Palestina chega até ser bíblico, de um lado o povo árabe que tem como seu antepassado Ismael, filho mais velho de Abraão, de outro lado, os judeus que tem como seu patriarca Isaque, também filho de Abraão. A briga pela ‘terra santa’ vai muito além dos laços sanguíneos que os cercam. Um dos conflitos mais famosos no Oriente Médio é a disputa pelo Domo da Rocha, local santo para árabes e judeus, que por sinal fica bem no meio de Jerusalém.
Para se entender melhor o motivo de tanta discórdia entre os povos irmãos, é preciso voltar no tempo; Segundo a bíblia sagrada, no local onde hoje temos o Domo da Rocha, no ano de 1004 antes de Cristo, o rei Salomão, filho do rei Davi teria finalizado a construção do templo em honra do Deus de Israel, o mesmo teria sido pilhado várias vezes e teria sido totalmente destruído por Nabucodonosor II da Babilónia, em 586 a.C., após dois anos de cerco a Jerusalém. Os seus tesouros teriam sido levados para a Babilónia e tinha assim início o período que se convencionou chamar de Exílio Babilônico ou Cativeiro em Babilónia na história judaica.
Décadas mais tarde, em 516 a.C., após o regresso de mais de 40.000 judeus do Cativeiro Babilónico foi iniciada a construção no mesmo local do Segundo Templo. Séculos mais tarde, na época de Jesus, o rei Herodes, o Grande, querendo agradar aos judeus, remodelou o templo, que foi destruído pelo general Tito em 70 d.C, pelos romanos, no seguimento da Grande Revolta Judaica.
No local onde antes ficava o antigo templo, em 691 depois de Cristo foi finalizada a construção do Domo da Rocha, atualmente sendo a mais famosa mesquita árabe. Ou seja, atualmente o local é sagrado para ambos os povos que disputam há anos a propriedade do local.
Tanta comoção e discussão territorial acabou por levar as nações islâmicas a guerra contra o Estado de Israel entre os anos 40, 50 e 60, e foi neste contexto de guerra que uma figura da Palestina chegou ao Brasil.
A História de Eisaa – Um espumosense que não nasceu em Espumoso
Nascido na Palestina, de nome árabe, Eissa, que traduzindo para o português significa Jesus, chegou à cidade de Espumoso em 1958, “Eu tinha uns 17 anos de idade, me lembro de ouvir meus pais dizendo que o Brasil era um país novo, onde não havia guerra. Ouvia isso o tempo todo. Na época meus pais me orientaram a vir para cá e trabalhar uns anos, segundo meus pais, esse seria o tempo que a guerra haveria de terminar e eu poderia voltar para casa. Eu vim, cheguei no Brasil e logo parei em Espumoso, me lembro que na época nem ruas com calçamento tinha, era tudo de terra, recordo bem da poeira que tinha aqui.
Quando cheguei aqui eu não sabia uma palavra em português, não entendia nada do que falavam comigo, eu me sentia triste pois não conhecia ninguém, a vida era muito difícil, nos primeiros meses eu chorava dia e noite sentindo a falta que minha família me fazia, mas vim para trabalhar, e trabalhei muito, casei e tive filhos, hoje tenho netos e bisnetos”, comentou.
Eisaa deixou sua família em sua terra natal e veio acompanhado apenas de alguns amigos para o Brasil, amigos que segundo ele, acabaram voltando para a Palestina.
Na cidade de Espumoso, Eisaa é conhecido como Seu Jesus ou Habib, dentre outros apelidos que foram pegando ao longo dos anos. Fato é que Eisaa é querido pela comunidade, e que aqui já escreveu seu nome e seu legado.
“Fiz muitos amigos ao longo dos anos, por isso me deram o apelido de ‘Habib’ que significa ‘querido’ em árabe. Todos me conhecem, todos conhecem minha lojinha que a anos fica aqui na Ângelo Macalós”, conta Habib com um sorriso no rosto.
Quando questionado se sente falta da sua terra e familiares, Eisaa pensativo respondeu, “eu tenho muita saudade, nunca mais voltei para casa desde que cheguei ao Brasil, saudades eu tenho, mas os anos se passaram e fui perdendo o contato. Depois que casei, tive filhos, constituí família aqui, realmente não consegui mais voltar, hoje essa é minha terra, esse é meu povo. Me lembro muito bem dos meus pais, irmãos, da Palestina, da cultura, da culinária, mas aprendi que aqui é meu lugar”.
Viúvo há alguns anos, Habib como é carinhosamente chamado, dedica seu tempo e suas forças em cuidar da família e da lojinha que conquistou ao longo dos anos, “meus filhos cresceram, casaram, alguns mudaram de cidade, me orgulho muito da minha história de vida, da força que tive em vencer na vida e criar meus filhos que hoje me dão tanta felicidade. Espero viver muito ainda, amo essa cidade, e aqui quero viver o tempo que me resta”, destaca Habib.






