Nesta segunda-feira pela manhã, Alcides Liberato Pereira, de 70 anos, percorreu as ruínas do Cemitério Municipal de Muçum, no Vale do Taquari, relembrando os sete sepultamentos que realizou no local, todos vítimas da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, ocorrida há 20 dias. O cenário nos municípios mais afetados pela tormenta, que já causou 49 mortes, continua desolador, mas a população demonstra resiliência e determinação para retomar as atividades cotidianas.
Embora algumas ruas tenham sido desobstruídas e acessos construídos, muitas estruturas ainda estão comprometidas, com entulhos espalhados, embora em menor quantidade. A alma dessa região permanece profundamente ferida. “Aqui é um município pequeno, e todo mundo conhece todo mundo. Jogava cartas com um senhor que agora está enterrado ali. Ele dizia que nunca pegaria enchente na casa dele. Mas aqui é um povo muito generoso. 99% do comércio perdeu tudo, não teve um banco que a água não pegou”, conta Alcides.
Alcides enterrou filho e pai da mesma família e teve que retirar, um dia após o enterro, o corpo da mulher que havia sido erroneamente identificada como mãe, pois se tratava da pessoa errada. A verdadeira mãe ainda está desaparecida.
Em cada acesso às cidades, uma faixa expressa a gratidão aos voluntários que continuam dedicando-se à reconstrução. As indústrias gradativamente retomam as atividades. Na segunda-feira, uma fábrica de alimentos reiniciou o abate parcial em Encantado, e em Roca Sales, uma indústria calçadista também voltou parcialmente. Em Muçum, nove galpões municipais estão repletos de doações, que não param de chegar, e a população continua em busca de auxílio. Itens como produtos de limpeza e roupas estão em quantidade suficiente na cidade.
“Dentro das possibilidades de uma catástrofe, estamos evoluindo bem. Superamos etapas iniciais, com o restabelecimento de serviços essenciais como comunicação, água e luz. Estamos sofridos, mas as doações estão vindo de todas as partes do Brasil”, afirma o prefeito Mateus Trojan.
No final de semana, o governo estadual concluiu a vistoria na área urbana do município, identificando 119 residências destruídas pela cheia, um cenário descrito como “apavorante”. A água ultrapassou 21 metros em Muçum, na região mais alta, e 29,60 metros em Estrela, na parte mais baixa.
A professora Lucilene Lucca Dal Molin, que leciona em duas escolas do município e reside no bairro Cidade Alta, passou a manhã separando itens e auxiliando como voluntária. Ela relata que, quando a enchente chegou, buscou abrigo na casa dos sogros e dali avistava a residência dos pais, Valmor Ricardo Lucca e Celestina Zamboni Lucca, que precisaram se refugiar no telhado para escapar da inundação. “A água estava a 30 centímetros deles. Eles se agarraram no telhado até o outro dia, quando os Bombeiros vieram resgatá-los”, conta Lucilene, que perdeu três vizinhos na tragédia.
“Ao ouvir essas histórias, percebemos que todos estão lutando para sobreviver”, diz ela. Próximo dali, Loreci Berá, cozinheira e mãe de cinco filhas, estava com Emanuelly, de 8 anos, e Isabelly, de 5, brincando com brinquedos que haviam encontrado. “Na minha casa não houve enchente, mas estou pegando algumas coisas para o meu pai, que é acamado. Aproveitei e peguei alguns brinquedos para elas, que não têm noção do que está acontecendo”, diz Loreci. As crianças brincam, alheias à tragédia, com um semblante de esperança e resiliência.
Fonte: Correio do Povo






