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A importância de se observar a conservação da água e do solo

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No final dos anos 80, em Dourados, no Mato Grosso do Sul, havia duas estações do ano bem definidas, das águas e das secas e, também, com culturas que não eram comuns para os gaúchos. Uma delas era o arroz de sequeiro que foi responsável pela abertura de novas áreas de agricultura e pecuária. Sua implantação ocorria com a retirada da mata e o cerrado existente, enleirando, queimando e plantando o arroz de sequeiro, não havendo a necessidade de irrigar, pois chovia todo dia, no final da tarde. Após a colheita, era semeada a braquiária e formada a pastagem. Outra cultura era a do algodão, plantado em abril, final da estação das águas e colhido em agosto, no forte da estação das secas, pois o algodão tem perda total na colheita, quando chove.

Próximo aos anos 2000, houve uma mudança neste regime de chuvas, devido a retirada de boa parte das matas para o plantio de soja, milho e pastagem. Desta forma ocorreu um desequilíbrio ambiental, favorecendo os períodos de estiagem no verão e de chuvas no inverno, acabando com os plantios de arroz de sequeiro e de algodão. Neste período, um grupo de produtores e assistentes técnicos fundou o Grupo de Plantio na Palha, com apoio da Embrapa e da Empaer, o que mudou o cenário da agricultura no Estado.

Aqui, no Rio Grande do Sul, por volta de 2012, foi observado pelas instituições de ensino e pesquisa, a deterioração do Sistema Plantio Direto, que teve aqui, em anos atrás, a sua origem. Voltaram os problemas de erosões nas lavouras de modo geral, com a retirada de terraços e a implantação de lavouras morro acima e morro abaixo. Em decorrência disto, as perdas por secas, tornaram-se comuns.

Não podemos admitir que em um Estado que tem em média 1.622mm[i]¹ de precipitação pluviométrica por ano, numa avaliação de 50 anos, possa ocorrer perdas por secas. Algo estamos fazendo de errado.

É possível alterar este cenário? A solução parece óbvia. Dependemos exclusivamente da mudança de atitudes do ser humano!

Um dos ensinamentos que tivemos neste período, foi que, em aproximadamente a 1 ano e 6 meses, estamos vivendo uma pandemia global e que as atitudes individuais comprometeram o controle do vírus e levaram à morte de boa parte da população. Mudamos nossas atitudes pelo impacto da perda de parentes e amigos, mas quando é o solo e o ambiente que estão morrendo, parece que não nos afeta. Como com a prevenção contra o coronavírus, as atitudes de cuidado são básicas: higienizar as mãos com frequência, usar máscaras e evitar a aglomeração das pessoas. Mudanças de hábitos.

Assim pode ser também com os cuidados com o meio ambiente e a conservação do solo. Uma atitude simples, é manter a água da chuva onde ela cai, evitando o escorrimento superficial, favorecer a sua infiltração em profundidade e armazenar a água para uso em períodos secos. Auxilia, também, na conservação das estradas vicinais e na qualidade da água dos rios e lagos.

Para contribuir com esta ação, o Estado promulgou a lei que criou o Programa Estadual de Conservação de Solo e Água, em 2015. Com a participação da Embrapa Trigo, Emater-RS, Universidades e Associações de Engenheiros Agrônomos aconteceram muitos eventos para discutir e alertar sobre esta realidade, o que, a nosso ver, não surtiram efeito de continuidade. Como na pandemia, só haverá alteração neste cenário se todos participarem na execução das ações de mudança. Isto implica que aconteça o envolvimento de todos os atores do agronegócio e da população, de modo geral.

Na intenção de organizar estas ações está em processo de constituição a ACSA – Associação de Conservação de Solo e Água, onde estarão incluídos todos os interessados, não ocorrendo o protagonismo de uma única instituição, com os objetivos de:

– Promover cursos de atualização agronômica em agricultura conservacionista;

– Realizar dias de campo de conservação de solo e água, mostrando as técnicas;

– Incentivar a adoção das microbacias hidrográficas para avaliação dos recursos naturais;

– Estabelecer um sistema de comunicação com os vários segmentos da economia da região;

– Valorizar a imagem da conservação do solo e água no Rio Grande do Sul e

– Promover, incentivar e facilitar a participação de produtores rurais e ATER em eventos.

Talvez, desta forma, poderemos reparar os erros cometidos e garantir uma produção sustentável de alimentos e os recursos naturais para as futuras gerações.

Texto do Eng. Agr. Fernando Peteado Cardoso, empresário do setor de fertilizantes, que investiu parte de sua fortuna na Fundação Agrisus, dedicada a trabalhos de conservação de solo. Este ensinamento nos faz pensar em como estamos administrando os recursos naturais para as futuras gerações.

*Planalto News

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