A construtora B.Fabbriani, com sede em Itapema (SC), está no centro de uma investigação que expõe o que pode ser um dos maiores golpes imobiliários da história recente de Santa Catarina. Na manhã desta quarta-feira (3), o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) deflagrou a Operação Black Flow, com o cumprimento de 28 mandados de busca e apreensão e 4 prisões preventivas no Rio de Janeiro, São Paulo e litoral catarinense.
Entre os presos estão Bruno Sequeira Fabbriani e Paulo Henrique Barrozo Fabbriani, apontados como líderes do esquema que movimentou aproximadamente R$ 90 milhões desviados de compradores de imóveis.
A coletiva de imprensa do Ministério Público confirmou que corretores de imóveis de Itapema também estão sendo investigados. Eles teriam atuado na venda de unidades sem registro de incorporação, muitas vezes sem alertar os consumidores de que estavam adquirindo cotas de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), e não imóveis prontos.
Colline: 168 vítimas e nenhuma parede levantada
O principal foco da investigação é o Colline Residencial, empreendimento lançado com previsão de entrega para dezembro de 2025. De acordo com a promotora Bianca da Silva, coordenadora do GAECO de Itajaí, 66% das unidades foram vendidas, o que representa 168 famílias diretamente lesadas.
No local, segundo o Ministério Público, há apenas a fundação da obra e um terreno tomado pelo mato. Nenhuma construção vertical foi erguida.
“Essas pessoas foram atraídas pela promessa de imóveis a preço de custo, mas o dinheiro foi desviado para contas pessoais dos investigados. O Colline é um símbolo de como o golpe foi estruturado para parecer legal”, explicou a promotora.
Dinheiro saía das SPEs e virava luxo: carros, viagens e escolas
A delegada Raquel Falcão, da Polícia Civil, detalhou como o dinheiro pago pelos compradores era rapidamente transferido das SPEs para empresas de fachada pertencentes aos mesmos sócios e, em seguida, pulverizado em contas pessoais.
As investigações identificaram despesas com:
- Compra de carros de luxo
- Passagens aéreas
- Mensalidades escolares
- Faturas de cartões de crédito
Tudo isso enquanto dezenas de obras estavam paradas ou nem iniciadas.
Corretores de imóveis entraram na mira da operação
Durante a coletiva, promotores confirmaram que há corretores de Itapema sendo investigados por participação no esquema. Em vez de alertarem os clientes de que se tratava de uma sociedade empresarial, vendiam os imóveis como se fossem convencionais.
“Quando se trata de SPE, o comprador adquire uma cota, não um imóvel. Isso precisa estar claro. O que vimos aqui foi a venda como se fosse um apartamento comum, muitas vezes por profissionais do mercado que sabiam da ilegalidade”, afirmou um dos promotores.
A atuação desses corretores será apurada nos próximos dias. O Ministério Público também recomendou que o CRECI acompanhe o caso e tome providências.
Operação Black Flow: 60 policiais e mandados em 3 estados
A Operação Black Flow contou com 60 policiais, mais de 15 viaturas e a articulação entre os GAECOs de Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo. Foram cumpridos mandados de prisão no estado do RJ, onde moram os principais investigados.
“Estamos falando de uma organização empresarial com mais de 16 empreendimentos só em Itapema. Em todos, há indícios de uso indevido dos recursos. E esse é só o começo”, afirmou o major da operação.
Além dos 16 empreendimentos mapeados em Itapema, o grupo também atuava em Joinville e mantinha escritórios em SP, RJ e RS.
“Ninguém faz nada sozinho”
O coordenador estadual do GAECO, promotor Wilson Paulo Mendonça Neto, afirmou que o caso representa uma das maiores investigações de crimes contra a economia popular no setor imobiliário em SC.
“Estamos falando de desvio de mais de R$ 90 milhões. Esse tipo de operação só é possível porque temos uma força-tarefa integrada. O GAECO é um trabalho coletivo para proteger a sociedade catarinense.”
Ele alertou que a SPE não é ilegal, mas exige que o consumidor seja corretamente informado.
“A chave aqui é o direito à informação. O consumidor precisa saber exatamente o que está comprando. Muitos acham que estão adquirindo um apartamento pronto, mas estão virando sócios de uma empresa sem qualquer garantia.”
MPSC pede que vítimas procurem a Promotoria
O Ministério Público pede que todos os compradores dos empreendimentos da B.Fabbriani procurem a 2ª Promotoria de Justiça de Itapema. O objetivo é levantar o número real de vítimas e auxiliar nas medidas de recuperação dos valores.
“Já temos as quebras bancárias, telemáticas e fiscais. Agora precisamos ouvir os consumidores. Muitos pagaram entrada, parcelas ou até o valor total, e não têm nem um tijolo no chão”, afirmou a promotora.
A investigação continua, e novas denúncias, prisões e bloqueios de bens não estão descartados. O MP também não descarta ações penais contra corretores envolvidos nas negociações.






