O pedido de Natal de grande parte dos atingidos da cheia que seguem em abrigos é por um lugar para chamar de casa.
*Colaboraram Angélica Silveira e Fernanda Bassôa
“Dar de volta para o meu filho um lar e tudo o que ele tinha”. Diferente de muitos pedidos feitos pelas pessoas para o Natal, o desejo da trabalhadora do lar Luciana Pereira, de 42 anos, mostra que as marcas da enchente histórica que assolou o Rio Grande do Sul em 2024 ainda estão vivas, mesmo depois de quase oito meses da tragédia. Desde o dia 18 de junho, ela, o esposo Eliseu de Oliveira Botelho, de 57 anos, e o filho, Gabriel Pereira, de 10 anos, vivem no dormitório G-89 do Centro Humanitário de Acolhimento (CHA) Vida, na zona Norte de Porto Alegre.
O espaço na Capital, que é gerido pela Organização das Nações Unidas (ONU) através da Agência para as Migrações (OIM), em parceria com o governo do Estado, ainda recebe 178 famílias que ficaram sem ter onde morar após as cheias de maio. Ao todo, 362 pessoas seguem recebendo atendimento no local e, nesta terça e quarta-feira, devem passar o Natal longe de casa e à espera de um novo lugar para chamar de lar.
Em função de todas as dificuldades vividas ao longo do ano, Luciana conta que as festas de final de ano, para ela, terão um gosto amargo. “Para mim, não tem algo para se comemorar, pois ainda é algo que machuca bastante. Vai ser a primeira vez que a gente passa longe da família. Todos os anos nós passamos com eles. Esse ano será com os amigos que fizemos aqui no abrigo. Então é complicado. A saudade é grande”, relatou.
Além disso, para ela, a distância para outros membros da família e o fato de não celebrar em casa pesam na dificuldade de achar forças para celebrar a data. “Meu filho mais velho, de 19 anos, mora no Sans Souci, em Eldorado do Sul. A minha filha estava aqui no abrigo, mas faz mais de mês que saiu e eu não sei para onde ela foi. A minha nasceu e eu ainda não conheci ela. Aqui, ficou eu, o Gabriel, o meu esposo que está trabalhando, meus pais e meu irmão. Mas ainda assim, é a primeira vez que vamos passar o Natal assim. Vai ser bem estranho para a família”, contou.
Antes moradores de uma casa alugada na rua Mexiana, na Ilha da Pintada, a família divide, desde o dia 18 de junho, um dormitório familiar de duas peças no único abrigo ainda em operação em Porto Alegre. Do local, onde residiam há cerca de 15 anos, Luciana conta que perdeu tudo. Entretanto, até chegar no Centro Vida, a família passou por muitas dificuldades enquanto tentava sobreviver. “Aqui a gente tem banheiro, lavanderia, refeitório compartilhado. Ainda é uma rotina totalmente diferente, mas bem melhor do que os outros abrigos que a gente ficou. Em alguns, dormíamos no chão, comíamos comida azeda. Foi bem complicado. Teve uma hora que eu só queria sumir”, completou.
No local desde junho, Luciana deu mais detalhes de como tem sido a rotina da família nestes meses enquanto aguardam um novo lar, desta vez, em definitivo. Entre as atividades, está a criação de hortas e cursos promovidos pela organização do espaço. “A gente está vivendo. O Gabriel tem estudado à tarde. Também temos diversas atividades e cursos. Eu mesma comecei um curso. No início, eu não tinha motivação nenhuma, mas descobri um problema de saúde e falei para mim mesma que vou começar a viver minha vida para não ficar só em um canto triste e chorando”, relatou a trabalhadora do lar.
Entre uma brincadeira e outra, o pequeno Gabriel relatou que o período em que a família está passando no abrigo tem sido legal, pois possui outras crianças para passar o tempo. Questionado se já havia realizado seu pedido para o Papai Noel, o menino respondeu que não, entretanto, já sabe o que quer ganhar de Natal. “Um carrinho de controle remoto. Aqui tem bastante espaço para brincar com ele”, afirmou. Após falar do seu anseio para a data, Gabriel se levantou e, rapidamente, foi em busca daquilo que ainda tem de mais concreto após todo o drama que a família passou: o carinho presente dentro do abraço da mãe.
À espera do presente que já ganhou
Dentro do abrigo, o sonho de uma casa nova está presente em todas as famílias. Para alguns, a concretização está mais próxima, como é o caso de Jorge Alexandre, de 51 anos. Para ele, o Natal terá um sabor mais doce. “Eu fico no abrigo por só mais uma semana e já vou embora. Sofri na enchente e não queria mais voltar para onde eu estava. O meu pedido de Natal foi para ter um lugar novo para morar. Eu pedi e já ganhei. Estou só aguardando as chaves. Vou aproveitar esses dias e as celebrações do abrigo para me despedir do pessoal”, relatou em tom de felicidade.
“Papai Noel” também passará o Natal longe de casa
Apesar das dificuldades enfrentadas pelas pessoas que estão residindo temporariamente no abrigo e do gosto amargo para muitos que ainda aguardam a oportunidade para voltar a ter uma casa própria, o Centro Vida está organizando uma série de atividades para celebrar a data com as famílias. Segundo o coordenador de operações do abrigo, Eugênio Guimarães, entre as ações estão sessões de cinema, atividades esportivas e uma ceia de Natal com distribuição de presentes para crianças e adolescentes de até 17 anos. Além disso, o Corpo de Bombeiros realizará um momento de descontração para as crianças no dia 25 com um banho de mangueira, por conta do calor da estação.
“Tivemos um momento em que as crianças fizeram os pedidos que elas queriam e a gente conseguiu reunir esses brinquedos, seja comprando parte como também o Estado conseguindo a arrecadação com parceiros. Será um momento diferente, pois as famílias estão ainda tentando se restabelecer. Será um momento de comunhão das pessoas que estão aqui, de promover a esperança de uma nova vida. Sabemos que as pessoas estão afetadas ainda e têm esse sentimento de perda, mas temos justamente esse trabalho diário de sensibilização para tentar restaurar a confiança na retomada para eles”, apontou.
Inclusive, o próprio coordenador de operações do espaço vestirá a roupa e a magia do Papai Noel para distribuir presentes para as crianças e alegrar a noite da véspera de Natal. Assim como muitos dos abrigados, Guimarães, que é pernambucano e atua nas missões da ONU, passará a festa longe de casa e da família pela primeira vez na vida. “O centro funciona 24 horas por dia e sete dias por semana. Então teremos equipes atuando no Natal e na virada de ano. E vai ser um momento novo para mim. Já atuei em Roraima também, mas essa será a primeira vez que passarei longe da minha família. Mas o trabalho, o nosso propósito é esse. E ficaremos aqui para trazer um pouco de alegria para essas pessoas”, completou.
O período de atendimento do CHA Vida está previsto para encerrar no dia 30 de junho de 2025. Guimarães também destacou a importância do trabalho que vem sendo realizado e que seguirá nos próximos meses para preparar as famílias para a retomada. “A conclusão antes estava prevista agora para dezembro, mas a gente percebeu que não daria tempo para que todos os trâmites dos programas sociais de moradia serem resolvidos. O trabalho do Centro Vida agora é atuar na perspectiva da integração na retomada. Estão sendo elaborados planos de saída e planos de vida buscando esse objetivo. São ações promovidas em conjunto com os demais entes”, finalizou.
Em Canoas, abrigados ainda carregam marcas da devastação
Após sete meses da maior tragédia climática que atingiu as cidades gaúchas, o Rio Grande do Sul ainda contabiliza 1.233 pessoas abrigadas em centros humanitários, sendo Canoas o município com mais pessoas fora de casa, com 412 moradores nesta situação. A maioria delas está alojada no Centro Humanitário de Acolhimento (CHA) Esperança, no bairro Igara, que também é gerido pelo OIM em parceria com o governo do Estado.
Em clima de esperança, resiliência e reconstrução, a tragédia da enchente ainda deixa cicatrizes profundas naqueles que perderam tudo. Sem moradia própria ou ainda pendente do benefício de aluguel social, é com o apoio de instituições, voluntários e doadores, que as famílias afetadas tentam superar as marcas deixadas pela tragédia e, aos poucos, mas ainda com muita dificuldade, estão buscando reconstruir suas vidas. Para todos, o desejo deste Natal é unânime: a casa própria.
O empreiteiro de obras José Luís dos Santos, cuja enchente levou a casa no bairro Mathias Velho, o carro e os maquinários de trabalho, tem como desejo neste Natal o anúncio da casa própria. “A gente entra em depressão em passar o Natal longe da família e ter que ficar aqui no abrigo. A enchente levou tudo o que eu tinha”, lamentou.
Zildo Vacariano, que morava de aluguel no bairro Mathias Velho, disse que este será um Natal triste pela situação que se encontra e por tudo que aconteceu em 2024. “Perdi meus móveis, fotos e recordações de uma vida inteira. Por mais que sejamos bem tratados aqui no abrigo, não é a casa da gente. Meu maior desejo neste fim de ano é que com esperança consigamos uma casa para morar com dignidade, sem depender de doações”, afirmou.
Para Fábio Rodrigues, o drama foi ainda maior, pois, além da casa e bens materiais, também perdeu o emprego durante a enchente. “Vai ser um Natal muito triste, com muitas incertezas. Minha casa, feita de madeira, foi literalmente desmanchada pelas águas. Desejo conseguir um bom serviço, força para reconstruir a minha casa e adquirir minhas coisas. É preciso muita coragem para lutar e batalhar tudo de novo e finalmente se reerguer. Para 2025, quero começar tudo de novo”, falou.
Jaqueline Pedroso e os dois filhos, que moravam nas margens da BR 386, chegou no Centro Esperança depois de passar por dois abrigos junto com o marido, que trabalha com reciclagem, e os dois filhos, Rafael e Nicolas, de 1 e 4 anos, respectivamente. Ela diz que está contente pelo clima natalino que se instalou no local.
“Não é nada bom passar o Natal longe de casa. Mas, pelo menos, aqui eu sinto que temos família. Não nos falta nada, temos comida e atividades para as crianças”, contou. Ela almeja presentes para os filhos porque perdeu roupas, carrinho de bebê e todos os pertences das crianças. “Perdi tudo. Para o futuro, quero minha família sempre unida”, completou.
Camila Rodrigues Matana, o esposo José Gregório Hernandez e os dois filhos Pietro Adriano, de 13 anos, e Deivison Micael, de 6 anos, vieram do bairro Rio Branco e, além da tão sonhada casa, desejam que neste Natal a família seja abençoada com muita saúde. “É o sonho de toda mãe ver seus filhos em uma casa, com privacidade, onde as crianças podem sair, correr, brincar e ter um lar para voltar”, reforçou. Da mesma forma, o filho mais velho almeja a casa de volta. “Com toda a minha família unida, todos bem, com saúde”, citou o menino.
Patrícia Ferreira, que veio de Tramandaí dois meses antes da enchente e foi resgatada junto com os três filhos de 9, 14 e 15 anos do segundo piso na casa alugada no bairro Rio Branco, diz que tenta manter o espírito de união dentro do abrigo. “A nossa dignidade se foi. É bem complicado passar o Natal nesta situação, com pessoas completamente estranhas, com costumes diferentes. A gente tem que se adequar, mas é bem difícil”, reforçou.
Patrícia almeja mais comprometimento dos órgãos envolvidos porque, passados sete meses da enxurrada, ela relata que as pessoas começaram a se sentir desamparadas. “Todos aqui estão procurando um rumo e uma solução para o futuro de suas vidas. São sete meses. Não queremos passar mais um ano recebendo kit de higiene e alimentação. Nós queremos a vida de volta, com rotina, respeito e dignidade”, finalizou.
Eugênio Guimarães, que também coordena o abrigo em Canoas, conta que, nesta segunda-feira, as últimas famílias alocadas no CHA Recomeço, próximo da Petrobras, foram transferidas para o CHA Esperança, encerrando as atividades no local. A previsão é que o Centro Esperança siga em operação até 30 de junho de 2025, assim como o Centro Vida, em Porto Alegre.
Celebração terá gosto amargo para famílias em abrigo de Pelotas
Em maio, centenas de famílias pelotenses foram expulsas de casa pela força das águas da Lagoa dos Patos e do Canal São Gonçalo. A maioria voltou para sua residência conseguindo recuperar os prejuízos materiais ou foram para novos endereços. Entretanto, esses não são os casos das 10 pessoas que permanecem no abrigo mantido pela Prefeitura há mais de sete meses.
Apesar de estarmos em dezembro, ao entrar no imóvel que se transformou em abrigo, não é possível ver nenhuma lembrança que estamos próximo ao Natal. Ao todo dez pessoas moram no local. Entre os moradores que se revezam na busca de material para reciclagem e os cuidados com o abrigo estão os irmãos Idemar, Vanderlei e Darcy Pires dos Santos.
Antes da enchente, os três moravam embaixo da ponte da BR 392, na estrada que leva a Rio Grande. “Fomos afetados quando o canal São Gonçalo entrou na nossa casa. Eu morava com o Darcy e o Vanderlei em uma peça no fundo. A casa era de madeira e a água estragou tudo o que tínhamos”, lamentou Idemar.
Os três recicladores não estão muito otimistas quanto a noite de Natal. Eles acreditam que a data seria melhor se nada disso tivesse ocorrido. “Às vezes vamos até onde ficou um pedaço da nossa casa para olhar o que sobrou. Lembro do último Natal, era pouco o que tínhamos mas era nosso”, relatou. Os três também levaram um gato para viver no abrigo.
Mesmo estando seguros no abrigo, eles são unânimes em dizer que preferiam estar em casa. “Perdemos tudo o que tínhamos. Móveis, colchão, roupa, fogão. Tudo mesmo. Neste Natal, ficamos só nós sem saber como vai ser. Não tenho ideia como seria a noite de Natal ideal para mim, apenas queria estar em casa, podendo tomar minhas próprias decisões sobre o que fazer, com as minhas coisas”, afirmou Idemar perdendo um pouco do sorriso que estampava o rosto.
Para ele, o único ponto positivo do Natal é que mora com dois de seus irmãos na mesma casa/abrigo por enquanto. Quando estão no local, os três gostam de sentar na frente para tomar chimarrão, colocar as conversas em dia e fazer planos. “Meu sonho é que no próximo Natal possa estar na minha casa, com a minha família unida, com móveis novos e tudo o que necessário. Apesar de ainda faltar muita coisa, tenho esperança”, observou. O irmão, Darcy diz que o sonho dele é ganhar de Natal uma bicicleta cargueira para trabalhar. “Quero conseguir com o meu esforço tudo o que a enchente levou”, justificou.
O sonho de um Natal na casa nova
Na mesma casa, só que em outros cômodos mora a família do autônomo Robson Gonçalves, de 31 anos. Ele conta que tinha sua casa, no balneário Valverde, no Laranjal, quando a enchente chegou e destruiu o seu lar. “Saímos de casa quando a Lagoa entrou e hoje estamos no terceiro abrigo. É complicado”, admitiu ele, que está com a esposa, a dona de casa, Paloma Gonçalves, de 30 anos, que não quis falar , pois está muito abalada com a situação, os três filhos Kemmilly, de 10 anos, Kheven, 6 anos, e Pietro, de um ano de seis meses, além de dois cachorros da raça pug, a Amora e o Alok.
Ele lembra do dia que saiu de casa, deixando praticamente tudo para trás. “Era 8 de maio quando a água começou a entrar. A nossa casa era uma peça, que dividimos entre o quarto, a cozinha e a sala. Quando precisávamos do banheiro, usávamos o do meu sogro no mesmo terreno ou o da minha sogra que era na esquina, mas era a nossa casa”, salientou.
Hoje o casal e os três filhos seguem dormindo no mesmo quarto que tem banheiro e utilizam também uma peça, no segundo andar do abrigo, onde foram colocados os brinquedos que as crianças ganharam após a enchente. Gonçalves se emociona ao lembrar do Natal do ano passado, sem a perspectiva de saber como será a noite da véspera, mas prometendo fazer o melhor possível para os filhos.
“Tínhamos uma árvore de Natal. As crianças ganharam presentes. Nós dividimos o terreno com o cunhado e o sogro. O Natal deste ano não sei como será, mas só não nos permitimos ficar tristes e desesperados por causa dos nossos filhos”, garantiu ele, ao mesmo tempo admitindo que o casal não tem ânimo para comemorar a data. “Queria mesmo era estar na casa nova, mas pelo jeito não vai dar. De repente até o Ano Novo, mas não estou esperançoso”, afirmou.
Após o pai ir até o quarto ver a situação da esposa e do filho caçula, Kheven começou a falar de sua experiência com o Natal. “Sempre tinha o presente que minha mãe comprava. Este ano eu espero que ela compre, mas eu acredito no Papai Noel, apesar de nunca ter visto ele. Queria um carrinho, mas se não ganhar no Natal posso esperar até o meu aniversário”, afirma. O menino nasceu no dia 26 de novembro.
Para o garoto não é ruim morar no abrigo, mas ele confessa sentir saudades de estar perto da família no Natal. “Não é ruim morar aqui, mas eu queria mesmo era estar em casa, no meu quarto novo do homem aranha e passar o Natal com a minha avó”, deseja. A avó do garoto alugou uma casa pequena no Centro.

Atingidos pela enchente, Luciana Pereira, o filho Gabriel e toda a família passarão o Natal no Centro Vida, o único abrigo ainda ativo da Capital | Foto: Mauro Schaefer

Camila Rodrigues Matana diz que “é o sonho de toda mãe ver seus filhos em uma casa, onde eles possam sair, correr, brincar e ter um lar para voltar”. | Foto: Fernanda Bassôa / Especial / CP

Os reciladores Vanderlei, Darcy e Idemar não lembram mais o dia que tiveram que sair de suas casas por causa da enchente | Foto: Angélica Silveira / Especial CP
*Correio do Povo






