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Dia Nacional de Combate ao Bullying: Do massacre de Realengo às facadas em sala de aula, especialista alerta para urgência de ações contra violência nas escolas

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Em 7 de abril de 2011, um massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, chocou o país e deu origem à data que marca o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. Na ocasião, um ex-aluno da instituição, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, matou 12 crianças, feriu mais de dez e cometeu suicídio. Segundo a nota deixada por ele, além de relatos de familiares e colegas, o jovem era reservado, sofria bullying com frequência. O crime teve ampla repercussão internacional e acendeu um alerta sobre os impactos da violência escolar. Quatorze anos depois, a realidade ainda assusta: na última semana, uma professora foi esfaqueada dentro de uma escola em Caxias do Sul (RS) por dois alunos de 14 e 15 anos; e, em Passo Fundo, vídeos mostraram adolescentes envolvidos em brigas violentas em plena luz do dia, na Avenida Brasil.

Diante desse cenário, a reportagem ouviu Michele Mattana, professora de Psicologia Escolar e Inclusão da Universidade de Passo Fundo (UPF), que reforça a importância de um olhar mais atento e eficaz sobre o bullying e seus efeitos. “Ainda em 2025, precisamos reforçar que bullying e violência não são brincadeiras de criança. São ações que trazem consequências sérias para o desenvolvimento emocional, social e acadêmico de quem sofre”, afirma a especialista.

Michele lembra que o Brasil avançou recentemente nesse debate com a Lei nº 14.811, sancionada em 2023, que passou a criminalizar o bullying e o cyberbullying. “No caso do bullying, a pena pode ser multa; já o cyberbullying pode levar a reclusão de dois a quatro anos, além de multa. Quando o agressor é menor de idade, a responsabilidade recai sobre os responsáveis legais”, explica.

Com a nova legislação, as escolas passaram a ser obrigadas a implementar políticas de prevenção e intervenção, mas a psicóloga alerta que essa responsabilidade não pode ser delegada apenas ao ambiente escolar. “É claro que a escola não pode se eximir, mas também não pode ser a única responsabilizada. A comunidade, a família e as políticas públicas precisam atuar juntas”, destaca.

Ainda segundo a professora, os impactos emocionais do bullying vão desde quadros de ansiedade e depressão até fobia social. “Estamos vendo crianças e adolescentes com maior consciência sobre saúde mental, mas também com muita fragilidade emocional. Estão sempre à deriva de algo que pode desencadear situações mais graves”, avalia.

Michele também chama atenção para a postura diante dos agressores. “O aluno que pratica o bullying muitas vezes é rotulado como ‘incomodativo’, mas é preciso entender que a violência pode ser um reflexo do contexto em que ele está inserido. Estigmatizá-lo não resolve”, afirma. Como alternativa às punições tradicionais, ela defende o uso dos Círculos de Paz, técnica da Justiça Restaurativa que pode ser aplicada no ambiente escolar. “Esses círculos colocam vítima e agressor frente a frente, com mediação adequada, para buscar soluções conjuntas. É uma forma de quebrar o ciclo de agressão e promover empatia”, explica.

Ela ressalta que muitas vezes a vítima também reage, passando a reproduzir comportamentos agressivos. “A lógica de ‘se baterem em você, bata de volta’ ainda é muito presente nas famílias. Isso reforça a cultura da violência e confunde os papéis dentro da escola”, observa Michele.

Casos extremos, como o massacre de Realengo ou o ataque recente em Caxias do Sul, são o extremo de uma realidade que começa com sinais ignorados. “A escola precisa ser um espaço de escuta e prevenção. Quando há silêncio, ou quando as medidas se resumem a punições, abrimos espaço para que essas situações escalem”, alerta.

Como medida prática, Michele defende a criação de grêmios estudantis anti-bullying, em que os próprios alunos atuem como referência e apoio aos colegas. “Esses estudantes podem acolher vítimas e identificar casos mais rapidamente, inclusive de cyberbullying, que muitas vezes demoram a chegar até professores ou a direção. Essa rede de apoio entre pares é essencial”, afirma.

A professora finaliza destacando que a prevenção e o acolhimento são as únicas saídas sustentáveis. “Punições por si só não funcionam. Precisamos de ações estruturadas, com escuta, empatia e protagonismo juvenil. Só assim conseguiremos enfrentar essa realidade que, infelizmente, ainda é cotidiana em muitas escolas brasileiras.”

*Radio Uirapuru

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