As ações de retaliação do Irã provocaram “danos consideráveis” à maior instalação de gás natural liquefeito do mundo, no Catar, o que provocou o temor de uma crise energética global e uma séria advertência do presidente americano Donald Trump à República Islâmica.
O agravamento do cenário foi traduzido em uma disparada nos preços do petróleo. O barril de Brent do Mar do Norte subia quase 10% às 9h35 GMT (6h35 de Brasília), negociado a 118,03 dólares. O West Texas Intermediate (WTI) operava em alta de 2,59%, a 98,81 dólares.
A guinada nas últimas horas foi provocada pelo ataque israelense, na quarta-feira, ao gigantesco campo de gás de South Pars–North Dome, compartilhado por Irã e Catar. O local é a maior reserva de gás conhecida do mundo e fornece quase 70% do gás natural para consumo interno da República Islâmica.
Em retaliação, o Irã atacou na quarta-feira a área de Ras Laffan, no Catar, o maior complexo industrial e porto de exportação de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, e voltou a atacar o local nesta quinta-feira.
A empresa estatal de energia do Catar, a QatarEnergy, relatou “danos consideráveis” na madrugada de quinta-feira, mas os incêndios provocados pelo ataque foram controlados, segundo o Ministério do Interior, que não relatou vítimas.
As represálias iranianas não se limitaram ao Catar. Um drone atingiu a refinaria saudita de Samref, em Yanbu, às margens do Mar Vermelho e com capacidade de processamento de mais de 400 mil barris de petróleo por dia, segundo o Ministério da Defesa.
Samref é uma infraestrutura de especial relevância, por ser uma alternativa à exportação de petróleo pelo Estreito de Ormuz, praticamente bloqueado atualmente pelo Irã. Yanbu recebe o petróleo transportado do Golfo, no leste da Arábia Saudita, por meio do oleoduto Petroline, de mais de 1 mil quilômetros.
Mais ao norte, no Kuwait, as duas refinarias da empresa estatal de petróleo do país — Mina Abdullah e Mina Al Ahmadi — também foram atingidas nesta quinta-feira por ataques de drones, que provocaram incêndios.
As duas instalações têm capacidade combinada de 800 mil barris por dia e, segundo a Kuwait National Petroleum Company, os dois incêndios foram controlados, sem relatos de vítimas.
AMEAÇAS DE TRUMP
Na plataforma Truth Social, Donald Trump confirmou que Israel atacou, na quarta-feira, a parte iraniana do campo offshore de South Pars e pareceu estabelecer distância da operação, ao afirmar que Washington “não sabia de nada” a respeito.
“ISRAEL NÃO FARÁ NOVOS ATAQUES no que se refere ao extremamente importante e valioso campo de South Pars, a menos que o Irã, de forma imprudente, decida atacar um país inocente, neste caso, o Catar”, publicou Trump.
Se o Irã atacar, os Estados Unidos, “com ou sem a ajuda e o consentimento de Israel, explodiriam maciçamente a totalidade do Campo de Gás de South Pars”, escreveu o presidente americano.
A Arábia Saudita afirmou, por sua vez, que “se reserva o direito” de responder militarmente ao Irã, que ataca regularmente seu território com drones e mísseis.
Corredor seguro
O bloqueio por parte do Irã do estratégico Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e do gás mundiais, continua no centro das atenções.
Segundo vários meios de comunicação iranianos, os deputados devem propor a cobrança de uma taxa para os navios no Estreito de Ormuz.
“Estamos trabalhando no Parlamento em um plano segundo o qual os países terão que pagar taxas e impostos à República Islâmica se quiserem utilizar o Estreito de Ormuz como via segura para o transporte de hidrocarbonetos e mercadorias”, afirmou a deputada Somayeh Rafiei, citada pela agência Isna.
A Organização Marítima Internacional (OMI) se reúne em caráter de urgência nesta quinta-feira em Londres para exigir a implementação de um corredor marítimo seguro para a saída dos navios bloqueados no Golfo.
O organismo da ONU responsável pela segurança no mar calcula que 20.000 marinheiros aguardam atualmente a bordo de 3.200 navios perto do Estreito de Ormuz.
Assim como no Federal Reserve (Fed, banco central americano), o forte aumento dos preços da energia devido à guerra dominará a reunião desta quinta-feira do Banco Central Europeu (BCE), que teme consequências sobre a inflação e o crescimento.
O presidente da França, Emmanuel Macron, denunciou uma “escalada imprudente”. “Vários (…) países do Golfo foram atingidos pela primeira vez em suas capacidades de produção, da mesma forma que o Irã foi atingido”, destacou Macron, que pediu negociações “diretas” entre americanos e iranianos sobre a questão.
Em quase três semanas, a guerra deixou mais de 2.200 mortos, segundo as autoridades, principalmente no Irã e no Líbano, a segunda frente de batalha do conflito, onde as forças de Israel enfrentam o movimento pró-Irã Hezbollah.
Correio do Povo






