A Global Virus Network (GVN) emitiu um alerta sobre uma “profunda preocupação em relação ao ressurgimento contínuo do sarampo nos Estados Unidos e em todo o mundo”. A GVN é uma rede global de virologistas de mais de 90 centros, presentes em mais de 40 países, que se dedica ao avanço de pesquisas e preparação para pandemias.
O temor ocorre em meio ao pior surto de sarampo nos EUA em mais de 30 anos. Em 2025, o país registrou mais de 2.242 casos em 45 estados. Pelo menos 11% dos pacientes precisaram ser hospitalizados, incluindo crianças pequenas, e houve três mortes confirmadas.
O sarampo é uma das doenças virais mais contagiosas do mundo e pode ser letal, especialmente entre crianças não vacinadas. No entanto, ele pode ser evitado com a tríplice viral, que previne ainda rubéola e caxumba. No Brasil, a primeira dose é orientada aos 12 meses, e a segunda aos 15. O país oferece ainda a proteção de forma gratuita para pessoas mais velhas que não tenham sido vacinadas na infância.
Apesar da alta eficácia e segurança, a cobertura com a dose tem caído em diversas partes do mundo. No Brasil, entrou em queda a partir de 2015 e, embora tenha melhorado desde 2022, o percentual de crianças protegidas com as duas continuou abaixo da meta de 95% em 2025, segundo dados preliminares do Ministério da Saúde.
Mesmo assim, o país mantém o certificado de eliminação do sarampo, que chegou a ser perdido em 2019 após diversos surtos da doença. Em 2024, depois de dois anos sem transmissão local, apenas com casos importados, o Brasil recuperou o status de livre da doença.
A conquista também levou a região das Américas a ser reconhecida como livre do sarampo, a única no mundo. No entanto, com surtos sustentados por ao menos 12 meses no Canadá, a região perdeu o certificado em novembro do ano passado.
Segundo o novo alerta da GVN, os dados indicam que os surtos de sarampo continuarão no início de 2026. “Autoridades de saúde pública alertam que os EUA, assim como o Canadá, podem perder em breve seu status de eliminação do sarampo, mantido há muito tempo, se a transmissão persistir”, diz.
O estado da Carolina do Sul, por exemplo, registrou 88 novos casos apenas desde a última sexta-feira. Ao todo, já são mais de 600 infectados no estado desde que o surto teve início em outubro do ano passado. Segundo o departamento de saúde local, a maioria dos pacientes não estava vacinada, e os casos foram detectados em escolas primárias, secundárias e de ensino médio e em duas universidades.
“O sarampo em qualquer lugar é uma ameaça em todos os lugares. Estes surtos são o resultado de desafios globais de longa data na manutenção de uma alta cobertura vacinal infantil e de vulnerabilidades persistentes nos sistemas de saúde pública”, afirma Scott Weaver, diretor de um Centro de Excelência da GVN na University of Texas Medical Branch, onde é professor, em comunicado.
Na última atualização da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), havia 12.596 casos confirmados de sarampo em 10 países das Américas em 2025 até 7 de novembro, aproximadamente 95% no Canadá, México e EUA e 89% entre pessoas não vacinadas ou com o status de imunização desconhecido.
O número já representava uma alta de 30 vezes em relação aos registros do mesmo período no ano anterior. Além disso, 28 mortes foram confirmadas no ano passado. Crianças com menos de 1 ano de idade são as mais afetadas, seguidas pelas de 1 a 4 anos, segundo a Opas.
“Fortalecer a imunização de rotina, a vigilância e a educação pública é essencial para prevenir novos surtos. A vacina tríplice viral é comprovada, segura e eficaz, e manter uma alta cobertura é a nossa melhor defesa”, diz Heidi Larson, diretora fundadora do Vaccine Confidence Project na London School of Hygiene & Tropical Medicine, no Reino Unido, e membro do Conselho de Administração da GVN.
No alerta, a rede de virologistas pede que governos, prestadores de serviços de saúde e agências de saúde pública:
- Promovam e facilitem a imunização MMR de todas as crianças e adultos não vacinados;
- Fortaleçam os sistemas de vigilância do sarampo para detectar e responder rapidamente aos surtos antes que se espalhem;
- Combatam a desinformação sobre vacinas por meio de comunicação pública baseada em evidências e
- Apoiem os esforços globais de imunização para reduzir doenças e mortes evitáveis em todo o mundo.
O Globo






