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Sem movimento de braços e pernas, estudante de Psicologia pinta quadros e panos de prato com pincel entre os dentes

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Ana Lanches

Produtos são vendidos para ajudar na renda da família, que mora de aluguel na vila São José 

Em uma casa decorada com capricho, Jéssica Teixeira Gomes, 29 anos, tem seu ateliê. Nas três peças do imóvel, ursos e bonecas dividem espaço com caixas repletas de insumos coloridos: potes de tinta, tecidos, pincéis, papéis-carbono e revistas que servem como molde para as criações.  

Acomodada na cadeira de rodas, Jéssica observa a publicação e colore, com o pincel entre os dentes, o espaço previamente contornado. Ela não tem o movimento dos braços e das pernas. Para levar a ferramenta até a boca, precisa da mãe, Cristiane Andrade Teixeira, 46 anos, mais do que uma auxiliar. 

— Ela é tudo para mim — define a pintora. 

Cristiane separa a cor pedida pela artesã, lava a ponta do pincel e posiciona o utensílio com cuidado nos lábios da filha. Com a mordida, Jéssica firma o pincel. Observa a revista para manter os tons do desenho original, repassado para a tela à lápis — o contorno é feito pela mãe. 

A paixão pela pintura foi cultivada ainda na infância, quando ela estudou no Centro de Reabilitação de Porto Alegre (Cerepal), na Zona Norte. Para chegar à perfeição dos tons de cores e seus sombreados, ela buscou vídeos no YouTube, prática que se intensificou há quatro anos. 

— Isso é a minha terapia, quando relaxo e fico bem. E uma forma de ser mais independente e ajudar nas contas da casa — explica Jéssica. 

O objeto mais comumente utilizado para virar obra de arte é um pano de prato, vendido para ajudar na renda familiar. Ambas precisam custear sozinhas aluguel, água, luz, alimentação e transporte. Com a demanda que os cuidados exigem, a mãe não pode sair de casa em busca de trabalho. 

Cada pano de prato leva uma semana para ficar pronto: quatro dias para colorir e mais três para secar. A mãe compra os rolos de 10 metros e corta o tecido em partes iguais. O valor cobrado é de R$ 25 por peça, e os desenhos variam entre uma menina de vestido e laço rosa, com um chapéu verde na mão, ou uma vaca malhada vestindo um avental. Símbolos religiosos também integram o catálogo. 

Jéssica nasceu prematura e ficou um mês hospitalizada. Os músculos da estudante são atrofiados devido a uma doença chamada artrogripose múltipla congênita. Até os sete anos de idade ela fez fisioterapia, mas a família foi informada que o quadro era irreversível, e desistiu do tratamento. 

Em 2020, começou o curso de Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com o ensino remoto, estuda em um notebook na sala de casa. Para alcançar o teclado, adaptou uma borracha na ponta de uma agulha de tricô. 

— Jéssica mostrou para todo mundo que pode fazer o que quiser. É o meu orgulho — afirma a mãe, emocionada a cada fim de frase. 

A primeira opção era outro curso: Artes Visuais. Em uma visita ao campus, ela notou uma escadaria e ficou temerária de não haver condições de chegar à sala de aula. Trocou a opção por Psicologia, pois afirma ser uma boa ouvinte. 

No caderno em que copia as lições, exibe uma caligrafia belíssima, de letras arredondadas e bem desenhada. A velocidade com que escreve surpreende quem desconhece a capacidade de adaptação de Jéssica. A escrita foi ensinada por uma amiga da família, a quem ela se refere como “avó de coração”, dona de um terreno onde ela viveu quando criança. 

À noite, quando não está estudando, ela cria quadros e pinta os panos de prato. Um dos seus sonhos é viver em uma casa com melhores condições de acessibilidade. E com vista para a rua. 

— Aqui tenho só uma parede. Queria ter um quarto só para mim também, pois preciso dividir com a mãe — justifica a estudante. 

O imóvel onde elas vivem fica na vila São José, bairro Partenon, zona leste de Porto Alegre. No terreno, há uma série de construções. Para chegar até a residência atual, precisam enfrentar uma rampa de concreto, íngreme em relação à rua. 

Há outra dificuldade, segundo a artista: a falta de ônibus adaptados. Ela afirma que já teve de esperar duas horas em uma parada até que chegasse um veículo com elevador para cadeirantes.

— Passaram quatro ônibus, todo mundo subiu e ficamos esperando. Às vezes a gente precisa ir até a Bento (Avenida Bento Gonçalves), mas subir de volta eu não consigo, é muito pesado para mim — relata a mãe. 

Para buscar uma casa própria, uma vaquinha virtual foi criada, que pode ser acessada neste link. As criações são divulgadas em dois perfis do Instagram: @jessikagomesss e @pinturas_dajeh

Como o trabalho artesanal é demorado, Jéssica recebe depósitos adiantados, e entrega os pedidos após vencer a quantidade de encomendas. Seu número de telefone foi cadastrado no sistema de transferências bancárias PIX: 51992798545. 

*Gaúcha ZH

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