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“Só quero que volte a ser como antes”, diz pai de menino que teve 22% do corpo queimado com Chama Crioula

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Foto: Arquivo pessoal
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A vida da família de Bernardo Bettio Fabris, 4 anos, mudou completamente desde 20 de setembro de 2023. Naquele dia, o menino brincava com o pai e o irmão quando a Chama Crioula caiu sobre ele e queimou 22% de seu corpo na sede do Grupo de Artes Nativas Sepé Tiarajú, em Espumoso.

Após o incidente, Bernardo ficou 58 dias internado no Hospital de Pronto Socorro, em Porto Alegre, onde passou por seis cirurgias. As pernas foram os membros mais afetados, o que fez com que parte dos movimentos ficasse comprometida em razão das queimaduras e do longo período de internação.

Hoje, Bernardo faz sessões de fisioterapia, acompanhamento com cirurgião plástico e, nos próximos dias, deve iniciar tratamento psicológico. Isso porque o trauma causou prejuízo emocional ao menino, como conta o pai, Rafael Fabris.

— A recuperação está sendo positiva, mas o psicológico foi muito afetado. Todas as noites ele tem crises de choro, pergunta porque os anjinhos da guarda abandonaram ele, pede pela pele de volta. O comportamento também mudou bastante: era um menino independente, corria por tudo, dormia sozinho, mas hoje ele só dorme com nós, não dá mais para ligar uma chama de fogão perto que ele se desespera. É de cortar o coração, para nós também está sendo muito difícil, mas temos que ser fortes por ele — disse.

O irmão mais velho, de 8 anos, também mudou depois de presenciar o acidente e, segundo o pai, a saída foi buscar acompanhamento psicológico. Ao tentar socorrer o filho, Rafael Fabris também teve queimaduras de segundo e terceiro graus nas mãos e braços.

— A vida de todos nós mudou radicalmente, tivemos que nos adaptar essa nova realidade. Sabemos que algumas cicatrizes vão ficar, mas o nosso maior desejo é que ele volte a ser aquele menino alegre e brincalhão. Ele está sofrendo bastante e acha que isso nunca vai passar, essa é uma dor que corta o coração de um pai e uma mãe — relata Rafael.

Inquérito não foi instaurado

Depois do incidente, a família registrou um boletim de ocorrência. Contudo, o delegado responsável pelo caso à época não instaurou inquérito policial visto que, no seu entendimento, não houve prática criminosa.

— É um caso que deve ser tratado na esfera civil diante da situação, apesar da gravidade do incidente, que teve repercussão criminal. Se houver qualquer tipo de responsabilidade do CTG em razão dos fatos, isso deve ser discutido na esfera civil e não na criminal, que é quem tutela a questão de dolo e culpa diante da prática das ações — afirmou a delegada regional, Fabiane Bittencourt.

A defesa da família questiona esse ponto de vista. Segundo o advogado Cristiano Zanon, o artefato de ferro usado para amparar a Chama Crioula, mantinha o fogo aceso com querosene, o que traria mais risco às pessoas que circulavam pelo local.

— (A estrutura) foi colocada solta de forma irresponsável e sem nenhuma proteção. Com grande número de pessoas no evento, crianças brincavam livremente próximas ao artefato cheio de combustível até que uma esbarrou nele. No nosso entendimento, os danos poderiam ter sido muito maiores. Além disso, a vítima e a sua família tiveram a vida extremamente alterada por causa do episódio — afirmou.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, o local estava com o alvará em dia na época do incidente. A defesa também lamenta a postura da entidade no dia do evento, que deu continuidade às festividades de Vinte de Setembro e, segundo a família, não prestou apoio especialmente em relação aos gastos do tratamento.

— Durante o período que ficou internado, tivemos que nos afastar do serviço e arcar com todos os custos do tratamento, despesas de viagens, cremes e remédios. A entidade oferece caronas algumas vezes a Porto Alegre, mas todos os custos são por nossa conta — disse Rafael.

Em nota, o Grupo de Artes Nativas Sepé Tiarajú afirmou que tenta prestar auxílio no que está ao alcance da entidade. Leia a nota na íntegra:

“Somos uma entidade e tentamos prestar auxílio no que está ao alcance desde o primeiro momento, prezando pela recuperação da criança que está retornando à rotina junto com a família. Nossa entidade está de portas e coração abertos para acolher a família”.

GZH

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