Uma equipe de astrônomos anunciou nesta quinta-feira (17, noite de quarta em Brasília) que o telescópio espacial Webb detectou os “indícios” mais promissores da possível existência de vida em um planeta fora do Sistema Solar, embora o anúncio tenha suscitado reservas entre outros especialistas.
Graças ao Telescópio Espacial James Webb, uma equipe de pesquisadores britânicos e norte-americanos detectou sinais de dois compostos químicos na atmosfera do planeta considerados há muito tempo como “bioassinaturas”, ou seja, indicadores de vida.
Na Terra, as substâncias químicas dimetilsulfeto (DMS) e dissulfeto de dimetila são produzidas unicamente por seres vivos, principalmente por algas marinhas microscópicas chamadas fitoplâncton.
Os pesquisadores enfatizaram que é preciso cautela e que mais observações são necessárias para confirmar essas descobertas.
Mas as implicações podem ser enormes, segundo Nikku Madhusudhan, astrofísico da Universidade de Cambridge e autor principal do estudo publicado na The Astrophysical Journal Letters.
“Francamente, acredito que isso é o mais perto que já estivemos de observar uma característica que possamos atribuir à vida”, acrescentou.
No entanto, especialistas alheios ao estudo destacaram que, no passado, houve controvérsias sobre outras descobertas relacionadas a esse exoplaneta. Essa presença química poderia ter sido criada por meios desconhecidos e sem relação com a vida.
Indicadores químicos
Com mais de oito vezes a massa da Terra e tamanho 2,5 vezes maior, K2-18b é um exoplaneta raro que orbita sua estrela em uma zona habitável — ou seja, que não é nem quente nem fria demais para a existência de água líquida, considerada um ingrediente essencial para a vida.
Em 2023, o telescópio Webb detectou metano e dióxido de carbono na atmosfera de K2-18b.
Foi a primeira vez que esse tipo de molécula baseada em carbono foi detectado em um exoplaneta na zona habitável.
Também foram detectados sinais fracos do composto químico DMS, o que levou os astrônomos a voltar o telescópio novamente para o planeta há um ano.
Desta vez, utilizaram seus instrumentos de infravermelho de médio alcance para detectar diferentes comprimentos de onda da luz.
Os especialistas encontraram sinais muito mais fortes dessas substâncias químicas, embora ainda abaixo do limiar estatístico necessário para garantir a importância científica de tais descobertas.
No ano passado, cientistas encontraram vestígios de DMS em um cometa, o que sugere que ele pode ser produzido por vias não orgânicas.
No entanto, a concentração do químico observada em K2-18b parece ser milhares de vezes mais forte do que na Terra, sugerindo fortemente uma origem biológica, afirmou Madhusudhan.
Estamos sozinhos no universo?
K2-18b tem sido considerado há muito tempo o principal candidato a ser um “planeta hicíano”: um mundo oceânico maior que a Terra com uma atmosfera rica em hidrogênio.
Não se acredita que esses planetas possam abrigar vida inteligente, mas sim microrganismos semelhantes aos presentes nos oceanos terrestres há bilhões de anos.
Raymond Pierrehumbert, professor de física planetária na Universidade de Oxford, realizou pesquisas separadas indicando que K2-18b é quente demais para abrigar vida.
Segundo ele, o cenário mais plausível é que se trate de oceanos de lava.
Sara Seager, professora de ciências planetárias no MIT, lembrou, por sua vez, que anteriormente foram mencionados traços de vapor d’água na atmosfera de K2-18b que, depois, revelaram-se ser outro gás.
Madhusudhan estimou que seriam necessárias apenas outras 16 a 24 horas adicionais de observações pelo Telescópio Webb para confirmar suas descobertas, algo que poderia acontecer nos próximos anos.
“Esse pode ser o ponto crucial, no qual, de repente, a questão fundamental de se estamos sozinhos no universo será algo que poderemos responder”, concluiu.
Correio do Povo






