GeralÚtimas Notícias

Todos os olhos para o céu

0
Compartilhe este post

O mundo era um bocado diferente em 1986. Não existia telefone celular, Internet e muito menos redes sociais. As pessoas ainda tinham o costume de enviar cartas escritas e cartões-postais das viagens de férias. Em janeiro daquele ano, um grave acidente com o ônibus espacial Challenger, apenas 73 segundos após a decolagem, causou a morte dos sete tripulantes. O que era para ter sido um bem-sucedido voo espacial, tornou-se uma tragédia exibida ao vivo por canais de televisão. Mas essa não seria a única catástrofe. Em abril, um acidente nuclear em Chernobyl, na Ucrânia, então pertencente à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), liberou material radioativo. O número oficial de vítimas aponta para 31 mortes, mas muitas pessoas morreram nos anos posteriores devido aos efeitos da radiação pelo corpo. No Brasil, o Plano Cruzado foi lançado para congelar os preços dos produtos e rebatizar a moeda nacional de Cruzado. Além desses fatos, e muitos outros que certamente construíram o imaginário daquele ano, houve um em especial. Um acontecimento que conduziu todos os olhos para o alto à procura de um visitante muito aguardado – a passagem do cometa Halley.

“O cometa Halley é o mais importante entre todos por ter sido o primeiro a ser confirmado como periódico. Até então, os cometas passavam uma vez perto do Sol e iam embora. Alguns realmente funcionam dessa maneira. Mas o astrônomo Edmond Halley descobriu, depois de observações, que este voltava periodicamente”, descreve a diretora do Observatório Astronômico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Marina Trevisan. Conforme informações da Agência Espacial Americana (Nasa), existem mais de 3,7 mil cometas conhecidos. Esses corpos celestes são resquícios da formação do Sistema Solar, ou seja, são muito antigos. Os cometas são bolas de gelo cósmicas formadas por gases congelados, rochas e poeira. Quando a órbita de um cometa se aproxima do Sol, acontece um aquecimento e ele solta poeira e gases em uma cabeça grande e brilhante. Esse processo forma uma cauda que se estende por milhões de quilômetros. O “Guia Ilustrado Zahar Astronomia”, de Ian Ridpath, apresenta definição semelhante: “Os cometas são bolas de gelo sujo que se originam na nuvem de Oort. São de especial interesse por serem feitos de material antigo, da origem do Sistema Solar, há cerca de 4,6 bilhões de anos. Ao se deslocarem rumo ao Sol, desprendem poeira que pode produzir meteoros no céu da Terra”.

Chuva de meteoros em outubro

Quem não viu o Halley em 1986, tem uma espécie de prêmio de consolação agora em outubro. Uma chuva de meteoros chamada “Orionídeas”, causada pelos detritos deixados pela poeira do cometa em sua passagem, pode ser vista no céu. O fenômeno apresenta melhor visibilidade em locais escuros e longe da poluição luminosa. O pico será no dia 21. “Essa chuva de meteoros acontece quando a Terra passa pelo ponto de sua órbita que contém detritos do cometa Halley. Esses detritos entram na atmosfera da Terra com uma grande velocidade, e a interação com o ar da atmosfera os aquecem até temperaturas muito altas, fazendo com que eles brilhem”, revela a diretora Marina Trevisan. “O pico dessa chuva de meteoros será no dia 21 de outubro. Mas para observá-la, temos que nos afastar dos grandes centros urbanos e buscar locais com pouca poluição luminosa, como cidades no interior”, aconselha.

O professor de Astrofísica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Roberto Cid Fernandes Junior, também sugere como observar melhor a chuva de meteoros. “A primeira coisa é procurar um local escuro e longe da cidade, como as praias, por exemplo. Depois da meia-noite em diante é o ideal para iniciar a observação. Não é para se ter grandes expectativas, mas de 10 a 20 meteoros por hora o fenômeno deve proporcionar. Se a pessoa olhar para o céu pode enxergar de três a quatro meteoros por hora”, estima. Outra chuva de meteoros deixada pelo rastro do Halley, conhecida como “Eta Aquarídeos”, ocorre sempre em maio. Quem tiver mais paciência também pode esperar pelo próximo retorno do cometa daqui a 40 anos, em 2061.

Cometa está a 5,3 bilhões de km do sol

Neste instante, o cometa Halley está perto do ponto mais distante de sua órbita no Sistema Solar. O corpo celeste passa pela constelação de Hydra e, em seguida, estará na constelação de Cão Menor, perto das Três Marias. “O cometa Halley não sai do Sistema Solar. Hoje, o cometa está a uma distância de cerca de 5,3 bilhões de quilômetros do Sol. Em 2023, quando inicia o caminho de volta, o cometa estará 9 milhões de quilômetros mais distante do Sol do que ele está hoje, chegando ao seu afélio, ou seja, o ponto de sua órbita que é o mais distante do Sol”, explica a diretora Marina Trevisan.

O cometa Halley, o mais famoso dessa galeria de viajantes do espaço, aproxima-se do Sol a cada 75-76 anos, em média, sendo chamado de periódico. O período varia por causa dos efeitos gravitacionais dos planetas. As dimensões do Halley são de 15 por 8 quilômetros. Trata-se de um objeto escuro e pouco reflexivo, o que significa que reflete apenas 3% da luz que incide sobre ele. Porém, quanto mais próximo do Sol, mais brilhante ele fica. Seu movimento é para trás, ao contrário do deslocamento da Terra. Conhecido ainda como “1P / Halley” – aquele “P” significa exatamente periódico –, sua importância vem exatamente disso. O inglês Edmond Halley usou a teoria da gravidade de Isaac Newton, publicada em “Principia Mathematica”, para calcular que os cometas se movem em torno do Sol em órbitas acentuadamente elípticas.

Dessa maneira, convencido de que os cometas avistados em 1531, 1607 e 1682 eram um só, Halley previu que o visitante do espaço retornaria por volta de 1758. Quando isso ocorreu, 16 anos após sua morte, o cometa foi batizado de Halley em sua homenagem. O legado de seu feito permanece. “Calcular as órbitas dos cometas e prever sua volta, conforme se constatou, era mais difícil do que se esperava. Calcular a órbita de um cometa que só aparecera uma vez era dificílimo. Halley tivera a sorte de trabalhar com um cometa brilhante, e portanto poder levantar suas aparições anteriores, que haviam sido bem documentadas, e que lhe forneceram dados adicionais que o ajudaram muito a calcular a órbita”, observa o escritor Isaac Asimov em seu livro “Guia para entender o Cometa de Halley”.

Mas voltemos ao ano de 1986. Quem avistou primeiro o Halley quando ele estava mais perto do Sol foi uma equipe de astrônomos norte-americanos, em 16 de outubro de 1982, no topo do Monte Palomar, na Califórnia. Com o auxílio de um equipamento adaptado ao telescópio de 5 metros, os cientistas vislumbraram o cometa a mais de 1 bilhão de quilômetros no espaço, enquanto acelerava em direção ao Sol para realizar sua 30ª aparição desde 240 A.C. Mas ainda faltava tempo para o corpo celeste poder ser avistado por instrumentos mais simples.

Houve intensa cooperação para registro da visita do Halley. O Laboratório de Jatopropulsão de Pasadena, na Califórnia, consolidou a “International Halley Watch” (na tradução “Observação Internacional do Halley”). Uma armada de naves não tripuladas foi de encontro ao cometa. As espaçonaves japonesas Suisei e Sakigake, as soviéticas Vega 1 e Vega 2, a sonda internacional ISEE-3 (ICE) e a Giotto, da Agência Espacial Europeia, tinham como missão coletar o maior número possível de dados sobre o corpo celeste. Os Estados Unidos, com cortes na área de exploração espacial, não enviou naves, mas cooperou com as sondas Pioneer 7 e Pioneer 12. Especialmente a Giotto, que tinha dois escudos de proteção para amortecer possíveis impactos da poeira, teve muito sucesso, pois chegou a ficar a apenas 605 quilômetros de distância do Halley e tirou 2 mil fotos no dia 14 de março de 1986. O cientista da ESA Gerhard Schwehm era um dos envolvidos na missão da Giotto e recordou, em uma entrevista para o site da Nasa, como tudo aconteceu. “Foi uma época muito emocionante, mas também de tensão, porque não sabíamos se a espaçonave funcionaria corretamente. Era vital que acontecesse, porque o encontro real durava apenas algumas horas e não havia tempo para recuperação se algo desse errado. Estou muito orgulhoso de dizer que tudo funcionou perfeitamente até 15 segundos antes da abordagem mais próxima – o momento em que a espaçonave foi atingida por uma partícula de poeira e começou a oscilar.”

Cometa virou um fenômeno de marketing

 Cartões-postais mostram o Halley em Nova Iorque, em 1910. Foto: Reprodução / CP

Nem tudo se resumiu aos estudos científicos durante o retorno do visitante. O cinema explorou a chegada do cometa por meio de filmes como “A Noite do Cometa” (1984), “Força Sinistra” (1985) e “Comboio do Terror” (1986). Houve lançamentos de camisetas, brinquedos, moeda, selo, chaveiros, chicletes e todo tipo de material sobre o Halley. No Brasil, aconteceu uma verdadeira “Halleymania”. Todos conversavam sobre o tema e erguiam os olhos para o céu com o auxílio de lunetas à procura do visitante.

A comédia “Os Trapalhões No Rabo do Cometa” (1986) chegou ao cinema para a diversão do público infantil. Importante destacar a “Família Halley”, criada pelo publicitário Marcelo Diniz, com o argumentista Luiz Antonio Aguiar e o ilustrador Lielzo Azambuja. Um dos personagens era o “Halleyfante”, robô do grupo que seria lançado como brinquedo pela Mimo e dividiria a tela com os participantes do programa infantil “Balão Mágico”. Na televisão brasileira, um especial chamado “A Era dos Halley” teve destaque e a estrofe “Halley, olhe pro céu”, da música “Cometa Halley”, de Aécio Flávio e Luis Antônio Aguiar, ficou na cabeça de muita gente na época. Em seguida, a família espacial apareceu no universo dos quadrinhos, que, na primeira edição, oferecia de brinde um bottom. Tudo isso carrega um significado curioso – a excitação pela vinda do cometa foi muito mais divertida do que ver, de fato, o corpo celeste no céu. Na verdade, muitos não viram nada na oportunidade, seja pela poluição ou até em função da luminosidade das cidades.

A capital gaúcha entra na febre

A expectativa à espera da visita do Halley foi a marca daqueles dias. Porto Alegre não ficou para trás na ocasião. O Escaler, reduto da boemia da cidade no bairro Bom Fim de 1982 até 2006, quando fechou suas portas, também tem relação com a passagem do cometa. O ex-dono do bar, Antônio Calheiros, conhecido como Toninho do Escaler, disponibilizou um telescópio no lado externo do local, no entorno de um campinho de futebol, para os frequentadores poderem observar o Halley em 1986. Uma faixa na frente do boteco dizia “Cometa Amor – No Bar Escaler”. A promoção contou com a participação dos alunos do curso de Astronomia da Ufrgs, que ajudavam nas dúvidas dos curiosos sobre o corpo celeste.

Também foi montada uma pequena plataforma de madeira no local para abrigar o equipamento. “A imprensa começou a falar do cometa e percebi que estava ali um canal para potencializar as vendas”, recorda Toninho. O ex-proprietário do Escaler sente nostalgia daquela época. “A cidade era mais amorosa”, conta, citando as filas que os frequentadores faziam para espiar o céu. Questionado se chegou a ver o cometa no próprio telescópio, Toninho diverte-se: “Claro que não. Só vi gente bebendo”.

O professor Roberto Cid Fernandes Junior estudava Física na Ufrgs em 1986. Era um dos ajudantes de Toninho durante o evento da passagem do astro perto do Sistema Solar. “Toda noite na Redenção eu enxergava o Halley, mas as pessoas achavam que veriam um tipo de fogo de artifício cruzando o céu. O cometa era grande, mas a cauda não dava para ver. Eu achava maravilhoso. Foi o cometa mais bonito que já vi”, relata. Cid conta que tudo foi divertido, fez muitas amizades na oportunidade, além de ganhar comida no bar e dinheiro para auxiliar o público a visualizar o cometa.

Nem todos que pretendiam ver o Halley tiveram a mesma sorte. “Estava na função de ver o cometa, porque só se falava disso na escola, no jornal e na televisão. Minha família se reuniu em um ponto alto do bairro Belém Novo, onde passamos toda a noite. Fizemos uma fogueira e ficamos deitados no chão olhando para o céu”, recorda com saudade Leila Steppe, de 46 anos. “A minha ideia era que fosse ver algo enorme. Confesso que foi uma certa decepção”, reconhece a advogada, que escrevia em seu diário sobre a vinda do cometa. Por outro lado, quem se afastou das grandes cidades pôde sentir o gostinho de ver o visitante. “Eu vi perfeitamente bem o cometa Halley”, diz a professora municipal Adriane Ricacheski, de 55 anos. “Tentei ver no Escaler, mas sempre tinha muita gente na fila. Consegui enxergar o cometa na Lagoa do Peixoto, em Osório, com a família do meu namorado. Estávamos com um telescópio e até a cauda deu para ver”, completa Adriane.

Edmond Halley esteve no Brasil

O inglês Edmond Halley nasceu no dia 8 de novembro de 1656, em Haggerston, perto de Londres na Inglaterra. Realizou os estudos na St. Paul’s School, de Londres, e posteriormente no Queen’s College, de Oxford. Matemática e astronomia eram o objeto de seus estudos. Com o apoio do rei Carlos II, Halley participou entre 1676 e 1678 de uma expedição astronômica à ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, a fim de preparar um catálogo das estrelas do Hemisfério Sul. Em 1678, foi eleito membro da Royal Society. Como já citado anteriormente, Halley ficou conhecido por descobrir que os cometas observados em três ocasiões se tratavam do mesmo. Em sua homenagem, o cometa recebeu o seu nome.

O astrônomo esteve duas vezes no Brasil e, curiosamente, ambas foram traumáticas para ele. Em 1699, chegou de navio na costa leste brasileira, onde foi recebido com sua tripulação por um governador português que queria que os europeus desembarcassem e renovassem seus estoques de água. Mas era uma farsa, como Halley registrou em uma carta. Conforme ele, o português queria que os navegantes levassem pau-brasil, cuja extração era proibida para os estrangeiros. Ou seja, se fizessem teriam a embarcação, chamada de Paramour, e os bens confiscados.

No ano seguinte, o navio esteve em Pernambuco, onde um cônsul inglês, conhecido por Hardwicke, mandou prender Halley por suspeita de pirataria. O barco foi vasculhado e nada que o incriminasse foi encontrado. Ele foi solto e o acusador culpou os portugueses que controlavam Recife pelo engano. Halley morreu no dia 14 de janeiro de 1742, em Greenwich, na Inglaterra.

Pânico e histeria na passagem em 1910

A penúltima passagem do cometa Halley pelo Sol foi muito diferente da mais recente. Em 1910, havia uma crença de que o visitante causaria o fim do mundo. O motivo era a presença na cauda do cometa de um gás tóxico e inflamável conhecido por cianogênio. A população de diversos lugares pensava que seria envenenada em função disso. Muitas igrejas mantiveram as portas abertas durante a noite para receber os fiéis assustados. Procissões ocorreram em pontos variados do mundo. Pílulas “anticometa”, máscaras e até guarda-chuvas protetores contra gases eram vendidos por charlatões de toda espécie. Vigaristas negociavam seguros para os mais distraídos. O pavor das pessoas era evidente.

Os bares, restaurantes e hotéis ficaram vazios, pois todos queriam estar reunidos com familiares para a hora final. “Vários suicídios foram atribuídos ao acontecimento iminente e uma mulher desafortunada ficou louca com as alucinações provocadas por sua crença de que o cometa iria destruir o mundo. Fazendeiros de uma região desmontaram seus para-raios para não atraírem o cometa. Muitas moças num subúrbio de Milwaukee enterraram suas cartas de amor a fim de protegerem seus segredos amorosos caso morressem. Encontros para preces eram abundantes e no Lago Superior pessoas abandonaram seus lares temendo que o impacto da cauda do cometa provocasse uma onda gigante”, revela o autor Brian Harpur em “O Livro Oficial do Cometa Halley”.

Lendas e histórias em torno da passagem do Halley eram esparramadas ao vento, como a de Mark Twain. O escritor norte-americano nasceu em 1835, ocasião em que o Halley passou perto do Sol, e morreu em 21 de abril de 1910, quando o cometa dava o ar da graça novamente por aqui. “Eu cheguei com o cometa Halley em 1835. Ele estará voltando no ano que vem e eu espero ir embora com ele”, declarou em 1909. O The New York Times publicou nota dizendo que a demanda por telescópios aumentou na cidade por causa da visita do cometa.

No Japão, as autoridades recomendaram à população para que mergulhasse a cabeça em água, a fim de escapar dos efeitos dos maléficos gases. Ao menos 17 composições musicais foram dedicadas ao cometa em 1910. Cartões-postais com referências ao tema também apareceram por todos os cantos, inclusive na publicidade de produtos. O correspondente em Paris do jornal Daily Mail de Londres demonstrou inconformismo com a visita do corpo celeste. “Paris está envergonhada com o cometa. Em vez de aparecer radiante e bela nos céus da noite passada, ‘Mademoiselle Halley’, como os parisienses o chamam, enviou uma chuva torrencial acompanhada de trovoadas que obscureceram o céu, de maneira que nada foi visto do cometa. As ascensões em balão tiveram que ser abandonadas e aqueles animados parisienses que passaram a noite no topo da Torre Eiffel, ou subiram os degraus íngremes da Igreja do Sagrado Coração, no topo de Montmartre, gastaram energia por nada”, escreveu o jornalista sob a manchete “Desapontamento em Paris”.

O jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1910, também concedeu grande espaço ao cometa. “É positivamente turbilhonante a preocupação universal com referência ao famoso ‘cabeleira’ que mais uma vez visita nossos espaços, maravilhando as multidões que de dia e de noite, em todo o orbe, andam de nariz para cima, olhando, entre curiosas e um tanto impressionadas, o espetáculo soberbo de uma longuíssima faixa pálida, opalescente, aprumada por sobre um núcleo brilhante, enorme, mais denso que a faixa”, destacou em suas páginas. Outro trecho dizia: “Na vida social, o cometa já está causando desequilíbrios de certa seriedade, queixando-se as donas de casa da ausência das fâmulas, das sempre fantásticas cozinheiras, mergulhadas agora nas igrejas ou nos cortiços, às voltas com ladainhas e terços, responsos e preces, apavoradas com o ‘tal’ do cometa. Santa ignorância!”.

Registros datam desde a antiguidade

 Desenhos fazem referência à passagem do cometa em 1835. Foto: Science Photo Library / Reprodção / CP

O cometa Halley é observado desde tempos remotos. Tábuas babilônicas do Museu Britânico registraram o visitante em 164 A.C. e ainda em 87 A.C. Os chineses observaram o cometa por 13 semanas em 451 D.C. A Tapeçaria Bayeux mostra o cometa parecido com uma “peteca” em 1066. Teria sido iniciada no ano posterior para comemorar a vitória do duque Guilherme, o Conquistador, da Normandia, sobre os ingleses e o rei Haroldo, em Hastings, e também reverenciar a visita do corpo celeste no ano anterior. Trata-se do mais antigo desenho do cometa, apesar de não ser a primeira aparição retratada.

O italiano Giotto di Bondone pintou a “Adoração dos Magos” na Capela Scrovegni, em Pádua, após enxergar o cometa em 1301. Na parte superior da representação, pode-se ver a Estrela de Belém em formato do objeto astronômico, sua fonte de inspiração. Em 1456, aconteceram fatos curiosos. O Papa Calisto III teria excomungado o cometa e realizado preces para libertar a população de sua influência e dos muçulmanos que sitiavam Belgrado. O matemático, astrônomo e geógrafo italiano Paolo dal Pozzo Toscanelli observou o cometa de Florença. “Sua cabeça era redonda e tão grande quanto o olho de um boi. Dela partia a cauda, em forma de leque, como uma cauda de pavão. Seu rastro era prodigioso, estendendo-se através de um terço do firmamento”, relatou na época.
Um bom punhado de anos mais tarde, em 1531, o líder da Reforma Protestante na Alemanha, Martinho Lutero, avistou o cometa. A descrição que ficou é a seguinte: “Um cometa é uma estrela que corre, não sendo fixa como um planeta, e sim um bastardo entre eles. É uma estrela arrogante e orgulhosa que monopoliza todo elemento e move-se como se estivesse sozinha”.

Os cometas de Bill Haley

O músico norte-americano William John Clifton Haley (com um “l” a menos no sobrenome) se inspirou no cometa para batizar seu conjunto, conhecido como “Bill Haley e Seus Cometas”, que chegou às paradas de sucesso com a música “Rock Around the Clock”, lançada em 1954. Com seu topete a base de gomalina, o cantor visitou o Brasil em duas ocasiões, 1958 e 1975. Apesar da inspiração no visitante celeste, Haley jamais viu o cometa famoso.
A reputação do cometa Halley é tão grande quanto o rastro deixado no céu por sua cauda. Poucos visitantes atraíram tantas atenções e transitaram com tamanha naturalidade por diferentes áreas do conhecimento humano, como ciência, história, religião e cultura. Sua fama é totalmente justificada.

*Correio do Povo

Mais em Geral